Opinião
100 anos de mestre Osório
.
As chuvas torrenciais faziam aumentar o nível do Rio Paraíba, numa lídima demonstração de um prolongado inverno, na velha cidade de Viçosa. Neste cenário bucólico e não menos campesino nasce Osório Tavares dos Santos, aos 25 dias do mês de Junho de 1922, do consórcio de Terto Tavares dos Santos e Laura Maria da Conceição, ambos lavradores de terra.
Menino irrequieto criado com os pés descalços sob o chão de terra batida de sua terra natal cresceu embalado pelos sons emanados dos instrumentos de afamados tocadores de pífanos, quando das noites festivas em louvor ao santo patronímico daquela comuna – Senhor Bom Jesus do Bonfim. Desde cedo manteve estrita ligação com os folguedos populares de Viçosa, quando presenciava apresentações de Reisados comandas por afamados ensaiadores do jaez de Manuel da Ingazeira, Mestre Lino do Sabalangá, Mestre Leocádio da Mata Verde dentre outros. O talento inconteste deste mestre do Reisado alagoano era ovacionado em várias partes do país. A pequena cidade do interior comumente conhecida como Terra da Cultura, berço de outras tantas personalidades do folclore, a saber, Dr. Théo Brandão, José Maria de Melo, José Pimentel Amorim e Aloísio Vilela, teve seu nome exaltado nas rimas descompassadas de Osório Tavares quando de uma alvissareira apresentação em Belo Horizonte, no auditório da Pontifícia Universidade de Minas Gerais –PUC: “Saiu nosso Reisado/Da Capital Maceió,/Lá do arto do farol,/Saímos entusiasmados/Falei pro afigurado:/Nós vamos subir os montes/Ternontonte, ontonte e ontem,/Que meu coração imagina/Viva o Estado de Minas/Capital Belo Horizonte,/E esta terra madeira/Terra do meu coração/Esta terra hospitaleira,/Os mineiros e as mineiras/Vêem o sol detrás dos montes,/Onde se vê as fontes/Forrada de pedras finas/Viva o Estado de Minas,/Capital Belo Horizonte”. Por anos a fio Osório Tavares dedicou sua vida a preservação do grupo de Reisado de sua Viçosa, se tornando o maior nome deste folguedo em terras caetés. Seu legado de autentico mestre teve o reconhecimento espontâneo de pesquisadores do jaez de Pedro Teixeira, Ranilson França e uma leva de outros mais, cujos registros foram gravados em letras garrafais nos anais do Boletim do Folclore Alagoano, órgão de divulgação das atividades da Comissão Alagoana de Folclore desde 1955.
O amor que nutria por sua terra natal sempre foi a máxime de suas cantorias e versos sempre improvisados, quando das apresentações do Reisado principalmente nas noites de Natal e Festas de Santos Reis. Aos 11 de Janeiro de 2013 a voz rouca e firme de mestre Osório Tavares emudeceu para sempre. O velho guerreiro da cultura popular viçosense encerra sua jornada terrena, dando adeus aos seus conterrâneos, familiares e amigos após várias décadas de dedicação ao Reisado do seu Bananal. Em câmara ardente seu corpo é velado por uma multidão, no auditório da Escola de Música José Aprígio Vilela, que em doloroso transe lhe presta as últimas homenagens, na esperança de que seu legado tenha a devida continuidade.