Opinião
RECUPERAR O CAMINHO
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O filósofo Blaise Pascoal escreveu: “Não há nada de justo ou injusto que não mude com o clima”. As intensas chuvas derramadas sobre Alagoas novamente causaram mortes e milhares de desabrigados, predominantemente pessoas carentes, agravando a miséria. Em 2010, ocorreu outra calamidade pública e lembramos também as chuvas de 1949, recentemente revividas no livro “A Rua das Árvores Cortadas”, da poetisa e acadêmica Vera Romariz, e em artigo do acadêmico Vinícius Maia Nobre. Esta tragédia atual, todavia, acontece concomitantemente a outros lamentos extremos da natureza maltratada, como as ondas de intenso e atípico calor na Índia e Europa, o degelo dos polos e o avanço do oceano. É o aquecimento global, alertado pela ciência e não levado a sério por autoridades públicas. Suas consequências começam a se apresentar, acenando para mais tragédias.
Em 1992, o Brasil sediou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, ou Eco-92, como ficou conhecida. Nela se reconheceu que a mudança do clima da Terra traria efeitos muito negativos para a humanidade e esboçaram-se medidas a fim de proteger o sistema climático para gerações presentes e futuras. A convenção reuniu chefes de Estado e representantes de 179 países, organismos internacionais, milhares de ONGs e participação direta do povo. Compromissos foram obtidos nessa conferência, considerada ainda hoje uma das mais importantes já realizadas. Pouco antes dessa conferência, o governo reconheceu a demarcação da terra indígena Yanomami, na presença de dezenas de suas lideranças. Entre tantas perdas preciosas, nos despedimos do intelectual Sérgio Rouanet, criador da Lei 8.313/1991, que estimulava a cultura. Felizmente, num rasgo de luz entre PECs “bondosas”, como a do Auxílio”, o Congresso reaprovou às Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, que de alguma forma manterão a cultura nacional viva. No primeiro governo depois da redemocratização, à frente o hoje senador Fernando Collor, ainda tínhamos o médico Adib Jatene no ministério da Saúde. Nos dias atuais, ele enfrentaria pandemias com o uso da ciência e certamente seriam poupadas inúmeras vidas inocentes. Um pouco antes, o Brasil aprovava a Lei 8080/1990, que criava o Sistema Único de Saúde, o SUS, sustentáculo da população na pandemia e do Programa de Vacinação Nacional, modelos mundiais. Em comum com as questões climática, ambiental e da saúde pública, está o respeito ao conhecimento e à ciência. Ortega y Gasset escreveu: “A cultura é o sistema de ideias vivas que cada época possui. Melhor: o sistema de ideias das quais o tempo vive”. Trinta anos atrás éramos uma referência mundial nas questões climática, ambiental, da saúde pública e no estímulo à cultura, implantávamos o SUS e as instituições democráticas funcionavam de forma ampla e irrestrita. A sensação de melancolia é inevitável pelo que poderíamos ser e ainda não somos como país. Um Brasil mais civilizado e mais estável, convivendo melhor com as diferenças, as minorias, e sem a prevalência de ódio. Mas nunca é tarde para se recuperar um caminho perdido.