Opinião
Trag�dia das ruas
Além da repulsa à covarde onda de assassinatos contra moradores de rua em São Paulo, esse fato deve provocar reflexões profundas a atitudes práticas por parte das autoridades governamentais não só em resposta a esse pavoroso crime, mas em relação à dura realidade das ruas em praticamente todas as principais cidades brasileiras. Chocante, o massacre dos moradores de rua na capital paulista põe a nu uma tragédia brasileira pouco reconhecida pelas autoridades e pouco estudada pela própria sociedade por intermédio de suas entidades governamentais e não-governamentais. Afinal, que dimensão tem o universo dos desabrigados crônicos, quantos brasileiros têm nas ruas, praças, viadutos e demais logradouros seu hábitat? Números existem, afinal o IBGE deve ter registrado esses viventes em nossos censos. Mas que estudos têm sido feitos sobre essa realidade? Existem vários movimentos assistenciais que se dedicam a essa população, procurando mitigar o sofrimento dessa gente; são tais movimentos formados por voluntários dedicados e atuantes e alguns procuram também organizá-los de alguma forma, mas e o reunir de todos esses dados? Que análises, seguidas de propostas, têm sido feitas sobre esse universo dos excluídos? Chama a atenção o fato de várias vítimas dessa onda de crimes serem simplesmente desconhecidos, cadáveres sem nome, indigentes absolutos. Nesse cenário dantesco é lembrada a existência de um ?Ministério das Cidades? ? responsável pelo que mesmo? Pelo sim, pelo não, como a onda de crimes não aconteceu no campo, o titular do silente ministério rompe o mutismo e formula acaciana reflexão: os ataques (perpetrados durante cinco dias) são ?resultado de um problema social sério?. Não estaria passando da hora de adotar um posicionamento governamental sério sobre tudo isso? Protestos têm vindo de todos os cantos, e até uma comissão especial para investigar o caso está sendo proposta na Câmara dos Deputados. Toda essa reação é bem-vinda, é uma saudável manifestação de alguma preocupação da sociedade para com homens e mulheres totalmente excluídos do campo da cidadania. Mas essas reações correm o risco de desvanecerem-se com o tempo, restringindo a atenção para com esses excluídos em poucas entidades especialmente dedicadas a essa área. É isso que precisa ser evitado. O que deve ser objeto de cobrança permanente é a ação do Estado, a ação governamental sobre essa tragédia social, independentemente das ocasiões em que venha a se transformar em tragédia policial.