Opinião
Por que gritar...
DOM FERNANDO IÓRIO * O gemido é a dor abafada, é a alegria silenciosa. O grito é a liberdade de querer jogar o sofrimento para bem longe, de resolver o aborrecimento e a raiva pela ausência do obstáculo. Grita-se para fugir; grita-se para se afastar; grita-se para ser ouvido; grita-se para desabafar, nos momentos de desespero ou de alegria. Certa feita, indagou Meher Baba de seus discípulos: - Por que as pessoas gritam, quando se aborrecem? Após algum tempo de silêncio, um deles respondeu: - porque perdem a calma... Mas, por que gritar, quando alguém lhe está ao lado? De novo, indagou Baba. Porventura não é possível falar-lhe em voz baixa? Por que se grita a determinada pessoa, quando se está aborrecido? Deram-lhe os discípulos inúmeras respostas, entretanto, nenhuma delas satisfez ao Baba. Sem muita espera, ele próprio procurou explicar: - quando duas pessoas se aborrecem, seus corações se afastam um do outro, guardando distância! Para superar tamanha separação, têm necessidade de gritar para que possam ser ouvidos... Quanto mais aborrecidas se tornarem, mais forte terão de gritar para escutar-se um ao outro, vencendo distância maior. Já notaram vocês, quando duas pessoas se enamoram? Elas não gritam, mas se falam suavemente. Qual a razão? Por que seus corações estão próximos, conservando mínima distância. Acontece alguma coisa quando cresce o enamorar-se? Sim, acontece: se os gritos foram superados, agora, sequer falam, apenas sussurram, porque mais perto do amor. Finalmente, chega o momento forte, quando nem de sussurrar precisam: apenas se olham, sendo o mútuo olhar a maior comunicação dos que se amam: tudo porque as duas pessoas estão, intensamente, próximas. Só então, concluiu Baba: - quando vocês discutirem, não permitam que seus corações se afastem; não prolatem palavras odiosas, criadoras de distâncias incomensuráveis, porque poderá chegar um momento, que não será episódico, em que a distância será tamanha que ninguém encontrará o caminho de volta, o retorno da paz. Não deixam de ser penetrantes os raios de sol dessa reflexão, mormente para nós, viandantes nas estradas da vida, ao lado de tantos que nos acompanham, não acostumados aos gritos de nosso desabafo, de nosso desequilíbrio emocional. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS