Opinião
Inoc�ncia fatal
Certos hábitos, aparentemente inofensivos, revelam sua nocividade de forma fatal e o que é pior, depois da tragédia voltam a ser considerados inócuos. Esse é o caso das ?pequenas transgressões? espécie de conceito filosófico que entende até como ?educativo? a quebra de certas regras. Um exemplo disso: cheirar loló, ou lança-perfume. Inalar lança-perfume tem seu lado de hábito cultural do tipo ?pequena transgressão?. Isso não pode ser dissimulado, é algo que se pode ver a cada carnaval ? seja em época ou fora dela. Em matéria publicada ontem na GAZETA, as autoridades policiais informavam que haviam apreendido 79 tubos de lança-perfume durante recente show realizado num respeitável clube na Praia de Jacarecica. Mais grave: as autoridades disseram que os jovens, ao serem abordados e terem seus ?tubos? apreendidos, demonstravam verdadeira estranheza com a atitude da polícia, pois não consideravam estarem fazendo algo errado. ?É besteira, todo mundo usa? é uma das frases-padrão da banalização do uso desses entorpecentes considerados inocentes. Deixa de ser besteira quando um, dentre os usuários, morre. E, geralmente, tem morrido jovens na flor da idade, como no caso de Simone, de apenas 13 anos. Não há dúvida que a adolescente não tinha idéia das possibilidades de perigo ao se dispor a inalar ?loló?. Até o nome engana. Loló tem pronúncia carinhosa, íntima, familiar; no entanto, pode matar. Sem ter a sombra terrificante de outros tipos de entorpecentes, como a maconha, a cocaína e outros tantos cujos nomes já se impregnaram do significado de crime e perigo, lança-perfume e loló ainda desfilam como ?coisa de criança?, coisa de brincadeira, ?besteira que todo mundo usa?. E Simone não é a primeira garota assassinada pela inalação desses produtos em Alagoas. Assassinada por quem? Certamente não pela caricatura de traficante que nos acostumamos a enxergar quando falamos em alucinógenos, pois lança-perfume e frascos de loló passam de mão em mão quase como brinquedo familiar. Quantas Simones perderão a vida enquanto forem mantidos certos hábitos que valorizam as tais ?pequenas transgressões?? A ação policial é indispensável, mas nunca será completamente eficiente se desacompanhada de uma ampla e permanente campanha de esclarecimento sobre os riscos de todos os tipos de entorpecentes, principalmente aqueles que estão consagrados como ?inocentes?.