Opinião
Horror sem fim
Reafirmando sua mortal eficiência, o terrorismo segue marcando esse início de século e as autoridades seguem registrando seus discursos e cristalizando suas incompetências em tratar com essa chaga. O terror fornece, a cada dia, mais demonstrações de sua globalidade, mesmo que atiçado por reivindicações políticas localizadas. Tendo como mote a quase desconhecida (para os ocidentais) Chechênia ou a bíblica ?Terra Santa?, ou a cosmopolita Nova Iorque, o horror se supera a cada atentado, em termos de sangue inocente derramado. E os governos ditos inimigos do terrorismo têm se superado em arrogância, ineficiência e atos estúpidos que, muitas vezes, se assemelham aos terroristas de plantão. Todos esses elementos podem ser localizados na tragédia da principal escola da cidade de Beslan, na república russa da Ossétia do Norte. Beslan e Ossétia do Norte eram nomes desconhecidos e ainda hoje poucos podem responder com precisão razoável onde fica esse lugar nas imensidões da Rússia, mas a simples menção desses nomes evoca em todo o mundo visões terrificantes de crianças assassinadas e seus cadáveres angelicais expostos na relva como um monumento à crueldade e à insensatez. Hoje, decorridos cinco dias do terrível desfecho, nem se sabe o número exato dos mortos (é certo que passaram dos 335 óbitos oficiais) nem mesmo estão esclarecidos fatos essenciais no processo de negociação e invasão da escola. Como no 11 de setembro, a única coisa certa é a fragilidade da sociedade civil e a incapacidade dos governos de garantir um mínimo de segurança em áreas de sabido risco para seus moradores. Esse risco conhecido é originado em feridas abertas por intervenções armadas levadas em regiões de alto poder explosivo. Até por serem potências militares capazes de resguardar suas forças armadas, seus líderes e governantes, esses países poderosos atraem o ódio insano para sua parte desprotegida, a maioria civil. O fanatismo religioso, com suas promessas de paraísos para os tresloucados assassinos que se disponham a derramar o sangue alheio, fornece o entorpecente ético que alimenta demônios assassinos e o inferno terreno para vítimas indefesas. E o que fazem as autoridades envolvidas nesses processos? Seguem dispostas a combater, com as mesmas armas, as conseqüências e não as causas das motivações terroristas. E a tragédia vai se avolumando em horror, matando a Leste e a Oeste.