Opinião
Revanche de Deus
DOM FERNANDO IÓRIO * A partir da metade do seu caminho, o século XX, chamado por E. Robsbawan de ?Século Breve?, trouxe, no dizer de Martin Heidegger ?a noite para o mundo? não por falta de Deus, mas pelo fato de que os seres humanos já não sentiam essa falta. A doença mortal dessa noite no mundo foi a indiferença, a falta de gosto, de sabor pela procura das razões últimas pelas quais vale a pena viver ou mesmo morrer. Faltou, em quase toda a segunda metade do século XX, a Paixão pela verdade. Exilados no Egito, os hebreus não mais se lembravam da pátria distante. Não deixa de ser verdade: o exílio não se inicia quando se deixa a pátria, mas quando não se sente mais saudade dela. É assim que se chega à decadência, que não consiste em abandonar valores, senão em sobraçar permanente processo bem mais sutil que priva o ser humano da paixão pela verdade, colocando-o de acordo com tudo e com todos, visando à afirmação de si mesmo. A modernidade deixou-nos aquele trágico rosto da falta de paixão pela verdade. Onde falta a paixão pela verdade até o amor transforma-se em máscara e a solidariedade pode unir-se a cálculos vulgares. Entretanto, a indiferença da decadência não apaga os sinais de luzes e esperança. Na procura do sentido perdido, salientamos o esforço de reencontrar o sentido para além do naufrágio, para além das 24 horas do dia, onde nos espera a 25ª hora do Abandonado da Cruz e do Vitorioso Domingo da Ressurreição. Diante de Pilatos, o flagelado vitorioso recorda, pelo Seu silêncio, que a verdade não é um sistema lógico capaz de definir-se, mas Alguém que nos possui, na comunhão do Seu povo fiel. Em busca da verdade, aumenta a procura de Deus, no horizonte do final do século XX e início do 3º milênio. Multiplicam-se os grupos e movimentos religiosos, ansiosos por um encontro com o Outro Transcendente para além da contingência humana. Procura o ser humano compensar o desprezo da verdade pelo hoje da procura de uma ?âncora religiosa? que aponte sinais de esperança no mar imenso do oceano da vida. Muitos até afirmam que Deus está na moda. Será aquela espécie de ?revanche? de Deus para a humanidade que O esqueceu? Procurá-lo no pluralismo de tantas ofertas consumistas? Parece-nos oportuno, neste momento de procura do sagrado, apresentar, diante da face desfigurada e fragmentada do verdadeiro semblante de Deus, o rosto do autêntico Filho de Deus, Jesus Cristo, que se proclamou: ?Caminho? (Lc. 11,23), ?Verdade? (Jo. 14,6) e ?Vida? (Jo. 14,16). Talvez seja esse o caminho mais esperançoso, para que se chegue ao Outro, entre os outros, sem dúvida: a primeira hora antes da primeira e a última após a última: a 25ª hora. (*) é bispo de palmeira dos ]Indios