Opinião
Falas e esperan�as
Os discursos de abertura dos debates da 59ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas deram seguimento às mais recentes tendências dos posicionamentos de algumas das mais expressivas lideranças do mundo. E aí se destaca a tendência de independência e destemor do secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Annan, que há cerca de uma semana havia ? pela primeira vez ? declarado que a invasão do Iraque era ilegal, voltou a calcar a tecla que irrita o presidente dos Estados Unidos, George Bush, e comentou a realidade no Iraque traçando um sinal de igualdade entre o assassinato de reféns capturados pela resistência iraquiana e o abuso contra prisioneiros cometidos pelos militares americanos em prisões daquele país. ?Em ambos os casos, houve abusos dos direitos humanos? ousou reconhecer o secretário-geral. No plano internacional, Kofi Annan defendeu a necessidade de um conjunto de regras que seja obedecido por todos os países e abordou também a necessidade de um papel atuante da comunidade internacional para ajudar a resolver conflitos como o de Darfur, no Sudão, e o entre palestinos e israelenses. Também puxando o mesmo gatilho, o presidente americano disparou as mesmas justificativas para as agressões cometidas contra o Afeganistão e o Iraque e defendeu os governos fantoches instalados nesses dois países como expressões da ?democracia? e da construção de ?países libertos das ditaduras?. No tocante ao Brasil, o presidente Lula também buscou o leito de discursos que tem caracterizado seu posicionamento internacional, insistiu na luta contra a fome em escala global e asseverou que ?manteve-se a lógica que drena o mundo da escassez para irrigar o do privilégio. Nas últimas décadas, a globalização assimétrica e excludente aprofundou o legado devastador da miséria e regressão social?. De todas as falas, seja no plenário, seja nas entrevistas à imprensa, a mais alvissareira é a que confirma, por parte do secretário- geral da ONU, a disposição em não seguir calado ou falando generalidades, quando entra em campo a força avassaladora da única superpotência do planeta. A ONU reforça sua importância como fórum internacional, como espaço de debates e de valorização dos princípios éticos entre as nações e os povos. Mesmo que estados altamente militarizados, como Israel, Coréia do Norte, Rússia e os Estados Unidos, não dêem atenção a suas resoluções, a autonomia e o destemor da Organização das Nações Unidas são um alento de paz no mundo. A coragem expressa por seu secretário-geral reacende a esperança de, um dia, uma agressão internacional possa vir a ser detida pela força de uma instituição como a ONU.