Opinião
Alvo antigo
Enquanto o inferno iraquiano segue a atormentar o mundo, renovam-se os sinais de que a barbaridade, pelas bandas do Oriente Médio, tende a ficar mais medonha ainda. Paz, nem pensar. E para complicar ainda mais a situação, as miras voltam-se para o Irã. O presidente do Irã, Mohammad Khatami, reivindica à comunidade internacional que reconheça o direito iraniano de enriquecer urânio para geração de energia elétrica e justifica que ?além de ser direito legal, isso está de acordo com o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP)?. Bush responde que ?o Irã, um país rico em petróleo, não precisa de um programa nuclear para obter energia elétrica? e acusa o governo iraniano de buscar construir armas atômicas. E, como dono do mundo, não se detém ante ?questões menores? como soberania nacional ou fóruns internacionais, e ameaça: ?Os Estados Unidos jamais aceitarão que Teerã disponha de armas nucleares?. A bem da verdade, o alvo principal naquela conflagrada área sempre foi o Irã e não o Iraque. Isso desde antes dos aiatolás, pois ainda no pós-guerra, daquele país foram emitidos claros sinais de independência e da ousadia de achar que o petróleo iraniano era dos iranianos. Em 1952, o pacifista doutor Mohammed Mossadegh, então primeiro-ministro do Irã, chegou a ser eleito o ?Homem do Ano? pela revista americana Time. Logo depois o premier decidiu que seu país deveria reassumir seus poços de petróleo, até então explorados pelos ingleses. Foi o início do fim do sonho de uma autonomia pacífica na região. Mossadegh foi deposto, processado, preso e sumiu da vida pública, morrendo ? em completo ostracismo ? em 1967. Em seu lugar reinou ? de 1953 a 1979 ? a sanguinária ditadura do Xá Reza Pahlevi, cozinhando em panela de pressão a reação violenta que explodiria na Revolução Islâmica. Para combater os xiitas iranianos de Khomeini, os Estados Unidos armaram os sunitas iraquianos comandados por Saddam Hussein e apostaram na guerra do Iraque contra o Irã, e daí os fatos estão mais vivos na memória de todos. De grande aliado e paixão dos Estados Unidos, Saddam virou inimigo odiado e terminou deposto pelos americanos, substituído (na invasão de 2003) por um governo-fantoche que não consegue controlar um país em permanente rebelião. Hoje, as atenções retornam a ancestral Pérsia, o Irã de nossos dias, e sua teimosia em ser independente e dono de suas próprias fontes de energia. Mais ou menos como em 1953, só que agora não existe mais a opção da autonomia pacifista e leiga do doutor Mossadegh.