loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Jorge de Lima

Ouvir
Compartilhar

DOM FERNANDO IÓRIO * Por vários estágios passou Jorge de Lima no seu fazer poético. Na terceira fase do mundo de sua poesia, vamos encontrar o poeta convertido ao Catolicismo (1935) e, profundamente, empenhado com seu amigo Murilo Mendes, em ?restaurar a Poesia em Cristo?, elaborando 45 poemas de ?Tempo e Eternidade?. Evidencia-se a fase religiosa de sua poesia que atinge a ?Túnica Inconsútil? (1938), o ?Livro de Sonetos? (1949), ?Mira Coeli? (1950). A Academia Alagoana de Letras, cenáculo maior da cultura alagoana, lançou, ousadamente, a nível nacional, pela visão desse gigante, sempre sonhador e realizador, Ib Gatto, o Concurso Jorge de Lima, cujo premiado foi o ensaísta paulista, Márcio Schell, com o trabalho: ?A poesia como transcendência ou o mundo desenraizado de Jorge de Lima: um olhar sobre a Invenção de Orfeu?. Não podia silenciar a noite de gala desse último 25 de setembro, quando algo escrevo sobre o Jorge religioso. Nesse contexto, após meu divagar, funde o poeta certa religiosidade natural, primitiva, com elementos subjetivos biográficos, partindo daí para a temática bíblica e católica. Tecnicamente falando, temos a destacar a presença do paralelismo bíblico e da prosimetria (Ode da Comunhão dos Santos). O bíblico vamos encontrá-lo em ?Tempo e Eternidade?, o litúrgico, em ?Túnica Inconsútil?. Dessa experiência poético-religiosa parte Jorge de Lima para aquela fase em que leva a expressão simbolista e hermética às últimas conseqüências. Podemos asseverar que essa fase se inicia com ?Mira Coeli? (1950), para chegar ao apogeu na ?Invenção de Orfeu?, poema épico, heteróclito, obscuro, hermeticamente arcano, espécie de nebulosa ou de um mundo em gestação cósmica, com clarinadas de inesquecível beleza. É a síntese de suas experiências poéticas, em que o artista entremistura o real com o irreal, o concreto com o abstrato, o religioso com o profano, o presente com o passado, o espiritual com o carnal, o animal com o humano, como se quisesse libertar-se de um mundo de reminiscências e fantasias, de desejos e angústias, numa duplicação e reduplicação de ?catarsis?. E no dizer de Antônio Cândido: ?É como se o poeta visionasse para aprisionar e, ao mesmo tempo, deixar em perpétuo movimento o tumulto caótico do primeiro dia da criação, com reflexos latentes na criatura sempre ameaçada pelo desencadear dos seus elementos, enquanto pressente a sombra de Deus que lhe sugere a antevisão da harmonia final?. Como poeta visionário, torna-se sua poesia de difícil interpretação. Como poeta místico, numerosos críticos, experimentados ou iniciantes, sem formação teológica, ficam, na anatomia da crítica, sem saber nadar nas águas do seu oceano poético. Assim continuo pensando: não sei se algum crítico já nasceu capaz de, consciente e integralmente, analisar e interpretar a ?Invenção de Orfeu?, de Jorge de Lima. E bato ponto. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

Relacionadas