Opinião
Crime conhecido
Cumprindo exemplarmente a função básica do jornalismo, a reportagem investigativa publicada pela GAZETA sobre o mercado ? quase nada clandestino ? de compra e venda de votos em Maceió, deixa claro a extensão de um dos mais recorrentes problemas da democracia, a corrupção eleitoral elementar: o direito de votar sendo convertido em negócio escuso. À boca miúda, há muito se comenta sobre os ?avanços? desse velho processo corruptor, e sua capacidade de se adaptar até à modernidade da urna eletrônica, equipamento que oferece as mais amplas e seguras condições de se garantir a inviolabilidade do voto. O mercado de compra e venda de votos, porém, sobrevive porque se apóia numa cumplicidade consciente entre comprador e vendedor, que buscam estabelecer novas formas de controle que assegure aos envolvidos alguma garantia de o negócio fechado ter sido cumprido. Daí, nestas eleições, a apresentação do tíquete comprovante da votação ter sido usada como recibo de comprovação de o voto vendido ter sido, efetivamente, entregue. É possível que daí tenha decorrido a excessiva concentração de eleitores no primeiro horário e o sumiço completo dos boca-de-urna que davam um colorido particular ao dia da eleição. Votar logo, apresentar o tíquete, acertar a contas e fim de jornada por aquele dia ? esse parece ter sido o ritual. Uma questão fundamental ainda espera ser apurada (o que não será nada fácil): qual a dimensão desse problema, quantos serão os votos disponíveis nesse mercado espúrio? Antes mesmo de se buscar saber a resposta a essa questão, cabe uma campanha cidadã contra esse crime eleitoral. O rigor deve ser aumentado no combate a essa ilegalidade e, após competentes e rigorosos procedimentos que a lei exige, devem ser exemplarmente punidos corruptos e corruptores. Pobreza e exclusão social não podem anistiar o vendedor de votos, embora possa atenuar a pena do corrompido em relação ao corruptor. Igualmente deve-se ter redobrada atenção às possibilidades de manipulação de denúncias ?armadas? para prejudicar adversários políticos e pessoais. Aos agentes da lei está colocada a tarefa de agir com multiplicada atenção e extrema agilidade, identificando todos os envolvidos e detalhando as operações identificadas. E esse trabalho deve recomeçar agora, afinal esse mercado tem uma nova possibilidade real de se manifestar nesses dias, até 31 de outubro. Mãos à obra!