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Opinião

Mito perigoso

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Quinta-feira, 14 de outubro de 2004, protestos marcaram a cidade sergipana de Propriá, reunindo moradores ribeirinhos de Alagoas, Sergipe, Pernambuco e Bahia. Aproximadamente 1.500 pessoas berraram contra o velho projeto de desviar parte das minguadas águas do Rio São Francisco para supostamente ?irrigar? os sertões até as lonjuras do Ceará. Por outro lado, nas lonjuras cearenses, outros manifestantes ? na vã suposição de que esse desvio d?água possa lhes ser a redenção ? clamavam pela continuidade da temerária idéia da ?divisão? do precioso líquido são-franciscano, crentes de que o Velho Chico tem água de sobra. O povo sempre tem razão. Certos estão os ribeirinhos em temer o óbvio: a transposição será o tiro de misericórdia no sofrido Velho Chico. Certos também estão os sertanejos distanciados do curso do São Francisco, pois não podem perder a esperança de ter acesso à água ? venha de onde vier. O erro está com as autoridades públicas que disseminam a ilusão eleitoreira de que a transposição seria uma solução viável na atual realidade do Rio São Francisco. E a transposição, sem dúvida, é plenamente discutível e talvez até factível ? só depois de implementado o processo de revitalização desse depauperado rio. O grande erro é agitar o povo com uma proposta de transposição sem ter sido dado um passo sequer no essencial processo de revitalização. Ao lado da transposição a qualquer preço estarão sempre as massas de sertanejos castigados pela seca, os políticos caçadores de votos nessas áreas ressequidas e as empreiteiras de todos os tamanhos e de todos os lugares, pois o dinheiro será transposto em enxurrada dos cofres públicos para seus caixas. Gigantescos interesses estão do lado ?transpositor?, é mister se reconhecer. Os únicos inocentes nessa operação são os sertanejos que, de longe, enxergam as águas do Rio São Francisco como a única salvação possível e crêem que o Velho Chico é imortal e inexaurível como as divindades, e como sabem que também são filhos de Deus, querem um pouco da dádiva do São Francisco. Mais um mito nordestino. Infelizmente, o mito da transposição do Rio São Francisco tem tudo para causar irreparáveis prejuízos para todo o país. Será necessário se redobrar a pressão da cidadania para que qualquer iniciativa no campo da transposição seja antecedida por ações reais de revitalização. O que não é nada fácil, devemos reconhecer.

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