Opinião
A Petrobras ruge
Roubando o foco das disputas eleitorais do segundo turno, a peleja entre a Petrobras e o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), surpreende ? de certa forma ? por pipocar em público de forma tão explícita. Há muito se sabe das divergências intestinas no governo Lula acerca das estratégias implementadas desde o Banco Central e apoiadas pelo Ministério da Fazenda. Entre choros e ranger de dentes de boa parte da equipe governamental, a dupla dinâmica formada pelo tucano e pelo ex-trotskista conduz, impávida, a carruagem globalizante. Como todos sabem que os debates nos bastidores do governo são de alto poder explosivo, sempre se espera alguma detonação. Mas certamente, não se imaginava que a bem-sucedida Petrobras tomasse a iniciativa de protestar em público. A gota d?água (ou de petróleo) foi a última ata do Procon ? hoje um esperado documento de interesse popular, como a sinopse do capítulo futuro da novela das oito ? que justifica a elevação da taxa de juros em função de um irresistível aumento futuro dos preços do derivados do petróleo, visto a tendência internacional de alta. Mas não pára por aí a polêmica econômica justificada pelo aumento de 0,5 ponto percentual determinado pelo Copom, o que elevou a taxa Selic de 15,25% para 16,75%. O centro desse conflito está na política, no poder de decidir sobre os rumos da economia. Cada vez mais poderosa e solitária em suas decisões, a dupla Meirelles & Palocci recebeu um sinal de alerta, mas nada indica que tenha se abalado com isso ? pelo menos nos momentos seguintes ao rugido da poderosa estatal. Na verdade, uma das feridas da estatal cinqüentenária está em sua parcela privada, que apesar de minoritária não pode ser levada em pouca consideração. Propositalmente, o Copom pôs o dedo na ferida aberta pelas expectativas ? não realizadas ? dos acionistas minoritários da Petrobras em valorizarem suas ações e auferirem um pouco mais de dividendos em função do aumento de preços do cobiçado óleo de pedra. Rugiu a Petrobras porque essa ferida dói mesmo. Por um lado, não aumentar os preços atende aos anseios da Nação brasileira, que treme ? com justas razões ? a simples lembrança disso. Por outro lado, são igualmente justas as razões de centenas de milhares de acionistas e de seus executivos financeiros que não desejam ter prejuízos significativos em função da defasagem dos preços cobrados pela empresa em relação ao mercado global. E a polêmica continua, agora aberta ao público.