Opinião
Esperan�a acanhada
Fortalecido pela vitória incontestável nas urnas, onde amealhou 59 milhões de votos e a maioria dos sufrágios no colégio eleitoral americano, George W. Bush tem sido ouvido com multiplicada atenção nos últimos dias ? justa preocupação de quem tem ouvido, pois até as vírgulas, entonação das falas do homem mais poderoso do mundo devem ser auscultadas sílaba a sílaba. Um dos ditos comentados dá conta de que o reeleito presidente norte-americano teria dito que deseja ?uma relação mais próxima com a América Latina durante seu segundo mandato na Casa Branca? A declaração foi repassada à imprensa pelo presidente do México, Vicente Fox, que a ouviu durante uma conversa telefônica com Bush, quando o prócer mexicano parabenizava seu colega americano pela vitória eleitoral. Certamente, os ouvidos de Fox estão afinados, pois o dito do presidente do Império coincide com avaliações de analistas internacionais sobre um possível incremento nas relações do governo americano com países de seu entorno próximo e que não lhe estejam dispostos a questionar-lhe interesses estratégicos. Em termos de estratégia, é importante salientar as avaliações que dão conta para o fato de que a política republicana, em termos comerciais (aí não incluídos negócios como os do petróleo e afins, é lógico), é relativamente menos protecionista que a concepção democrata, mais sensível aos clamores sociais das camadas menos favorecidas nos Estados Unidos. E o que América Latina deve esperar do governo Bush? Em primeiro lugar, seria preciso saber o que os latinos estão a propor ao gigante do Norte, e isso não está suficientemente claro nem em termos gerais (do relacionamento globalizado entre as Américas) nem em questões especificamente vitais como a Alca. Na verdade, nosotros latinos não nos entendemos nem sobre o Mercosul... Antes de esperar alguma coisa do poderoso interlocutor ianque, o mais correto seria os latino-americanos buscarem entre si um mínimo de unidade. Que interesses comuns podem costurar as distintas aspirações nacionais e regionais desde o calorento México até a gélida Patagônia? Esse é o caminho óbvio, mas também é evidente que o superpoderoso ?irmão? do Norte não veja com olhos fraternais o estabelecimento de uma plataforma comum de estratégias entre los cucarachos. Desunidos, os latinos americanos seguem fragilizados, insistindo na velha prática esperar favores americanos ao invés de lutarem por reivindicações comuns. Para essa acanhada América Latina é provável que Bush seja visto com certa esperança.