Opinião
O cora��o
| Gilberto de Macedo * O coração humano é, a um só tempo, órgão natural, biológico, e órgão simbólico. No primeiro caso, da máxima importância para a conservação da vida, da razão de se dizê-lo órgão vital. No caso simbólico ? assunto do presente ? tem infinitas representações, que fazem dele o mais rico de conotações no conjunto bio-psicológico-existencial do indivíduo. Isso permitiu a frase de Tolstoi: ?É no coração do homem que residem o princípio e o fim de todas as coisas?. É que significativamente está o mesmo envolvido de todas as imagens românticas que lhes são adjudicadas pela tradição de todos os povos, em todos os tempos e em todas as sociedades. Tem sido simbolizado e cantado como a sede do amor. Daí a significativa afirmação do padre Feijó: ?O coração nunca envelhece. Basta um sorriso, um nada, um alvoroço e tudo nele se ilumina e aquece?. Pois que o simbolismo sentimental do mesmo está na alma do povo, enraizado na mentalidade popular, inclusive na criatividade dos intelectuais. E assim acontece através da mentalidade popular inclusive na criatividade dos intelectuais. E assim acontece através da inspiração na música e na poesia, eruditas e populares, nestas, sobretudo. Está aí permanentemente representado. É o coração do romantismo sempre carregado de inspiração dadivosa, da razão do poeta Flaubert ter dito: ?Um coração é riqueza que não se vende e não se compra: dá-se?. Assim está nele toda a essência significativa do humano de maneira inesgotável, despertando a criatividade da imaginação das pessoas sensíveis, o que deu lugar às palavras de Amiel, de que: ?Quanto mais vazio está um coração, mais pesa?. Desse modo, é que está sempre presente, imanente na projeção do amor e transcendente nas obras dos românticos das artes literárias, como já, àquela época tão distante, ensinava o filósofo Confúcio: ?Por muito longe que o espírito alcance, nunca ora tão longe como o coração?. E, nos tempos de hoje, de sentido equivalente, ouve-se cantar na música popular: ?Longe dos olhos, perto do coração?. Uma representatividade sem fim, em sua incomparável fonte de inspiração na criação da beleza nas artes, poética e lírica, e na atitude romântica das pessoas. Coração esse que transcende a natureza biológica, para se eternizar na forma estética ? da criação, na poesia, no canto, na pureza do amor humano e na sublimação do amor divino. Daí que Racine, com sua brilhante inteligência tenha podido dizer: ?Reine no meu coração a limpidez do dia?. (*) É médico.