Opinião
O CASO HERZOG
RUYTER BARCELOS * O regime militar voltou ao cenário político com a publicação das fotos que seriam do jornalista morto durante aquele período de nossa história recente. Quem as enviou para a imprensa sabia que não eram de Vladimir Herzog, mas seu objetivo foi atingido, vale dizer, foi reaberta a discussão sobre os arquivos da ditadura. Sobre o tema, há ampla literatura de esquerda publicada e quase nada do outro lado, pois a opção do silêncio indica que o tempo é o senhor da razão. Assim, em um livro considerado revelador, o jornalista Luís Mir lançou novas luzes sobre aquele período. E reacendeu a polêmica, com depoimentos vivos, sobre como se tentou essa ?revolução impossível?, num país onde os comunistas nunca transpuseram a fronteira do desejo, nem se converteram em uma ameaça real. Para o autor, ?O Brasil de hoje tem impressões digitais e caminhos abertos pelos derrotados e sobreviventes da resistência armada contra o regime militar?. Outro livro muito interessante, Abaixo a Ditadura, de Wladimir Palmeira e José Dirceu ? onde os autores narram que ?os militares brasileiros foram alunos criativos dos programas de Fort Bragg; jamais cometeram os excessos dos seus colegas argentinos ou chilenos, mas dizimaram as oposições com requintes de crueldade. Contra jovens rebeldes, ainda adolescentes, sem preparação militar ou com treinamento precário, os gorilas brasileiros usaram um arsenal que teria assombrado um militante do IRA ou Al Fatah?. Ainda neste contexto, na obra ?Os Anos de Chumbo ? A memória militar sobre a repressão?, de Maria Celina D?Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro, os autores consideram que ?o Estado de Segurança Nacional foi uma tentativa de engenharia política dos governos militares para combater o que eles percebiam como perigo interno, representado pela ameaça comunista?. Por outro lado, ?A Grande Barreira?, do escritor e coronel da reserva José Fernando Maya Pedrosa, expõe aos leitores a grande barreira que os militares antepuseram ao avanço do marxismo-leninismo no Brasil e procura caracterizar as idéias, emoções e atitudes destes, no cumprimento da difícil tarefa de enfrentar seus adversários ideológicos, instituir o arbítrio que sempre julgaram temporário e salvador e, por isso, ficarem sujeitos ao julgamento da História. Será que chegou o momento? O Brasil enfrenta sérias mazelas, onde os indicadores sociais denunciam o muito por fazer em áreas críticas como educação, saúde e segurança pública. O desemprego atormenta a vida do brasileiro e a violência adentra seus lares. O governo federal não consegue abandonar a retórica eleitoral e concretizar seus programas sociais, desiludindo a maioria dos cidadãos e frustrando a primeira experiência da esquerda no poder. A realidade demonstra como é difícil governar um país-continente com tantos contrastes regionais e desníveis sociais. As urnas colocam em dúvida a reeleição do atual presidente da República e o projeto de poder da esquerda. Portanto, o debate histórico se mostra inoportuno e poderá ser visto como oportunista, na medida em que desvia a atenção do eleitor dos fracassos sociais do governo e faz foco em assunto polêmico. Além disso, abrir os arquivos será imaturidade política, pois muitos atores ainda estão vivos, outros atuam no cenário político e alguns estão no poder, fato que põe em questionamento a imparcialidade do julgamento. Nessas condições, com certeza, o tecido social recém-cicatrizado sangrará sem necessidade. O importante é olhar o futuro, pois as lições do passado foram aprendidas. Hoje, olhando a caserna de fora, se pode afirmar que poder nunca mais. (*) É EMPRESÁRIO [email protected]