Opinião
Vit�ria na adversidade
Mais uma vez, Yasser Arafat repetirá um dos prodígios que marcaram sua agitada vida. Morto, está atraindo todos os holofotes das atenções internacionais para a sofrida silhueta palestina, sepultando de vez o infeliz conceito expressado, décadas atrás, pela então primeira-ministra israelense Golda Meir, quando teria afirmado que ?não existe o povo palestino?. Ninguém hoje pode mais repetir essa frase, embora essa formulação esteja presente nos corações de muitos, em muitos lugares. Vencendo os preconceitos, inclusive entre muitos árabes, o povo palestino existe e tem sua existência definitivamente reconhecida em todos os níveis. Um estado palestino é outra questão e bem mais difícil de ser resolvida, mas mesmo nesse campo, deve ser considerada uma enorme conquista o ?pré-estado? representado pela Autoridade Palestina e sua precária autoridade sobre algumas semidestruídas áreas de terra. Morto, Yasser Arafat marca mais um ponto. Oficialmente considerado pelos mais inflexíveis israelenses como o ?principal obstáculo? às negociações de paz na região e tido por várias lideranças palestinas como ?autocrático?, ao morrer, esse líder deixa bem vivo o desafio para seus inimigos e adversários para avançarem no processo, superando os obstáculos que ele foi acusado de não ter sabido vencer. E, posto de lado a admiração ou aversão que possa ter despertado, em vida, esse líder que hoje está sendo velado a centenas de quilômetros do local onde vive a causa que norteou sua existência, a morte de Arafat abre, indiscutivelmente, um leque de oportunidades para novos encaminhamentos positivos naquela conflagrada região do Oriente Médio. Essa nova oportunidade possibilita chances inusitadas até para George W. Bush, que pode se alçar ? através da incontestável força dos Estados Unidos em relação a Israel ? um inusitado papel pacifista, podendo até superar os incríveis avanços obtidos pelo então presidente democrata Bill Clinton, quando conseguiu o primeiro aperto de mãos entre os principais líderes dos dois lados em contenda. O que não é provável acontecer é alguma melhora significativa nas propostas apresentadas ao povo palestino, para quem sempre foram postas opções do tipo ?escolha de Sofia? ? tema de um filme famoso onde uma mãe judia era forçada pelos nazistas a escolher entre seus dois filhos o que deveria morrer ?, situações onde a dramaticidade das alternativas simplesmente engessa o raciocínio e incapacita uma decisão pragmática. De toda forma, Arafat conseguiu mais uma vitória e, por um bom tempo, o foco do mundo está sobre a causa palestina.