Opinião
Viver como as flores
DOM FERNANDO IÓRIO * Poderemos ser decisivo produto do meio em que vivemos. Alguns sociólogos assim pensaram. Não poderemos, porventura, superar os obstáculos e os atrativos do ambiente que nos circunda?!... As vitórias e as quedas dependem das estratégias de quem vai tecendo a sua história, enrolando e desenrolando o carretel do roteiro da vida. O ambiente me programa na proporção em que eu me deixo levar pela correnteza da facilidade. Entretanto, se eu me reinventar, não há ambiente que me programe. Apesar de Ortega y Gasset asseverar que o ser humano é resultado do que ele quer, do ambiente em que vive e das circunstâncias que o envolvem, nada mais verdadeiro que o valor do querer humano para superar os danos e as perdas das montanhas que emolduram o desfiladeiro do caminhar. Já o ambiente cultural que me circunda não me torna produto da cultura. Ao contrário, sirvo-me da cultura para adaptar-me a ela no que possui de valor. Não que ela me envolva, possuindo-me, mas que dela eu me sirva para ser mais, inculturando-me. É fora de dúvida que nascemos com todo o peso de nossa genética física e psíquica. Mas, não somos, tão-somente, isso. A sociedade em que vivemos possui muitos tentáculos, olhos e braços, que nos vigiam, interferindo em nossa realidade. Além do mais, estamos inseridos em uma cultura de força inaudita, agindo sobre nós. Vencer esse envolvimento exige de nós discernimento, perseverança, a todo instante. Em antigo mosteiro budista, um jovem monge questiona o mestre... ??Mestre, como faço para não me aborrecer? Algumas pessoas falam demais, outras são ignorantes, muitas são indiferentes. Sinto ódio das que são mentirosas. Sofro com as que caluniam?. ? Pois, ?viva como as flores!?, advertiu o mestre. ??Como é viver como as flores??, perguntou o discípulo. -?Repare nas flores?, continuou o Mestre, apontando os lírios que cresciam no jardim. ? ?Elas nascem no esterco, entretanto são puras e perfumadas, extraem do adubo malcheiroso tudo quanto lhes é útil e saudável, não permitindo que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas?. Portanto, - ?é justo angustiar-se com as próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros o importunem e contaminem, porque os defeitos deles são deles e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimento?. -?Exercite, fortemente, a virtude de rejeitar todo mal que vem de fora?. E concluiu o mestre: - ?Isso é viver como as flores?. São Francisco de Sales, no seu saboroso livro ?Filotéia?, aconselha: - ?Filotéia, existe, nas profundezas do oceano, uma flor que, mesmo no meio das águas, não se molha?. Procura não te contaminar com o mal, mas te servir das coisas boas para seres mais, alguém de mais valor. (*) é bispo de Palmeira dos Índios