Opinião
Palavras violentadas
No Jornal da Globo, veiculado na noite de terça-feira, o comentarista Arnaldo Jabor, entre ferinas e irrespondíveis colocações, pôs o dedo numa das feridas da mídia internacional: por que usar o termo ?insurgentes? para rotular os combatentes iraquianos contra os Estados Unidos? O mais correto é chamá-los de ?resistentes?. Afinal ? como os franceses que se reagiram à ocupação nazista ? este é o termo mais conhecido para esse tipo de reação armada contra um exército invasor. Quem defende a nova denominação poderá argumentar que a resistência antinazista dos franceses, a mais famosa das resistências na História, também é reconhecida pelos termos ?maquis? e ?partisans?. E acerta quem apostar ser correta a múltipla denominação para esse tipo de movimento. Mas a pontaria certeira de Jabor vai ao âmago da questão, quando deixa claro que parte da grande mídia quer evitar o uso de uma palavra ?positiva? para designar os combatentes iraquianos, e aí tenta driblar os termos mais adequados como resistentes ? o mais conhecido ? ou maquis, ou partisans (menos conhecidos). ?Insurgente?, embora não seja um termo pejorativo em si, parece ser usado quase como sinônimo de ?terrorista?. Chocam as notícias e cenas dos resistentes iraquianos a degolar vítimas indefesas, em explícitos atos de terrorismo. Mas igualmente devem ser considerados atos de terrorismo as cenas de americanos sacrificando feridos e os inúmeros bombardeios sobre alvos civis ? cujos corpos estraçalhados não são permitidos filmar ou fotografar. A guerra do Iraque é um shopping da morte, onde o terrorismo é moeda corrente nos dois lados do balcão. E a humanidade deve se chocar com isso, se insurgir contra isso, condenar com igual veemência esse procedimento por parte de quem quer que seja. E para que essa carnificina seja julgada corretamente, é necessário que as palavras adequadas sejam usadas sem subterfúgios. Assim, Saddam Hussein era um ditador e foi derrubado por uma invasão estrangeira; Saddam Hussein não tinha armas de destruição em massa e, quando as teve, essas foram cedidas pelo governo norte-americano, que era seu aliado de então; a invasão e ocupação do Iraque têm produzido um gigantesco ? e ainda não dimensionado com exatidão ? número de mortos civis; existe um extenso e crescente movimento de resistência armada iraquiano à ocupação americana; existe um patético governo-fantoche imposto ao Iraque pelo exército americano. E outras coisas mais... E o mais fundamental, como deixou claro o cineasta e comentarista da Rede Globo, é deixar de lado a mistificação e o falseamento da verdade. Assim, quem sabe, pelo menos sairão de cena os atentados à inteligência do público mundial.