Opinião
A ruptura
GILBERTO DE MACEDO * Fenômeno universal, a ruptura pode ocorrer em todos os níveis da existência, do material ao humano e ao social. É o rompimento da unidade, quebra do conjunto, desunião das partes, perda da relação, desavença da convivência, conflito, desestruturação. Rompimento dos laços conjugais, amorosos, e antagonismo na vida em grupo. Solidão no primeiro caso, marginalização no segundo. Lá é a tristeza, cá a revolta. Lá, estranhos no ninho; aqui, agressividade. É o fim de uma realidade, esta que, como diz o filósofo Alfred Nortb Whitehead, ?é uma unidade complexa?. Unidade da família do enredo na obra literária; da beleza na figura artística na teoria científica; no discurso filosófico; e na natureza. Desajustamento, desagregação, decapitação, demolição, destruição e morte, dizem da ruptura. Assim, de baixo para cima, do nível menos complexo ao mais complexo, pode ocorrer a ruptura. No plano material, físico ? dos átomos de que trata a ciência da física; das moléculas, assunto da química ? desintegração no primeiro caso e separação no segundo. Ruptura Vital ? das células; é a desorganização que estuda a biologia. Leva à doença orgânica. Ruptura Mental ? no espaço da estrutura psíquica, com a desarmonia interna do conflito conciente-inconsciente, que leva à doença e distúrbios do comportamento. Ruptura sentimental ? com a separação da ternura levando ao rompimento da relação amorosa, da tristeza do amor despedaçado, de que fala a poesia de Coleridge: ?Encontrar-se, conhecer-se e separar- se. É a história de muitos corações humanos?. Ruptura ética ? do comportamento contra a virtude, negando os valores, levada por interesses espúrios, desprezando os ensinamentos da Bíblia, que dizem: ?O homem vale o que vale a sua fama...?. Ruptura intelectual ? pela ausência da coerência da frase e interferência de contradições obscurecendo o estilo. Ruptura filosófica ? da contradição lógica do discurso enunciado, levando à confusão das idéias. Ruptura social ? da falta de participação na sociedade, da exclusão de tantas pessoas, por imperativo da injustiça reinante. Sociedade que nega o próprio conceito, originando a contradição, o mal-estar, a violência e as demais atitudes hostis, esquecendo-se daquele célebre ditado da Escocesa, quando diz que: ?O sorriso custa menos que a eletricidade e dá mais luz?. Ruptura política ? da contradição da teoria ideológica e sua prática partidária pela traição dos dirigentes, desatentos à lição de Confúcio, de que: ?Um bom líder não abusa do poder, é honesto e ouve a voz do povo?. Ruptura religiosa ? crença desprezada pela dúvida que nega a fé, como acontece na falsa religiosidade. É ruptura espiritual. Ruptura histórica ? quando acontecimentos estranhos à cultura de uma sociedade interferem, bloqueando a evolução da mesma, como se nas invasões de povos, quando o neo-colonialismo, explícito ou implícito, direto ou indireto, assume o comando, tal qual na globalização. Afinal, a ruptura é fenômeno negativo, atitude destrutiva, comportamento triste, que contraria o ideal da existência e da humanidade, que está na organização da realidade. Assim, a ruptura é negativa e triste. (*) É PSIQUIATRA