Opinião
O bispo dom zen
DOM EDVALDO G. AMARAL * À pg. 90 das ?Memórias Salesianas...? digo o seguinte: ?Lembro do chinês pe. José Zeh Kiun Zen, que teve grande atuação no Capítulo [Geral dos Salesianos] pelo seu preparo filosófico e teológico. Com ele, tive proveitosas conversações. Em 1996, foi eleito bispo coadjutor de Hong Kong, com grande projeção na Igreja da China, por sua corajosa oposição a medidas antidemocráticas do governo de Pequim, que buscam suprimir a liberdade política com a qual sempre viveu o território, quando pertencia ao Império Britânico. Em 1º de outubro de 2000, no Ano Santo, foram canonizados S. Agostinho Zhao Rong e seus companheiros, 119 mártires chineses, entre os quais dois salesianos, Luiz Versiglia, bispo de Schiu Chow, e Calixto Caravário, sacerdote. O governo comunista chinês considerou esta beatificação uma ofensa do Vaticano, porque aquele dia era uma data nacional. Na verdade, a Santa Sé não foi advertida sobre essa coincidência de datas, e excluindo os dois salesianos, vítimas de piratas vermelhos em 1930, os demais mártires, canonizados naquele dia, eram de tempos anteriores, dois e três séculos atrás, bem antes da instalação do regime comunista. Naquele ano, Dom Zen foi chamado a Roma para tratar com o papa da situação da Igreja sob o governo de Pequim, especialmente a situação de Hong Kong. Entre 28 e 30 de abril deste ano, o governo fez uma gentileza ao bispo coadjutor de Hong Kong, permitindo-lhe visitar sua terra natal, Shangai, naturalmente quase sempre acompanhado por funcionários do governo. Esperava com esse gesto calar sua voz, incômoda aos chefes políticos da República Popular Chinesa, especialmente o presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Kabao. Tal não ocorreu. Poucos dias antes, a 26 de abril, a Assembléia do povo chinês (o Parlamento) havia negado o pedido de sufrágio universal, apresentado por amplos setores da sociedade civil de Hong Kong. Há um ano já, um número crescente de cidadãos exige poder eleger diretamente, em 2007, o próximo ?chef executive?, que é o Administrador local, atualmente nomeado por Pequim, com mandato qüinqüenal. Também a sociedade da Ilha quer poder eleger, em 2008, todos os deputados do Conselho Legislativo, atualmente eleitos segundo complicados processos, que visam subtrair do povo a liberdade de escolha de seus representantes. Tais movimentos populares se baseiam no dispositivo legal de entrega da antiga colônia britânica à China, com a manutenção por 50 anos do sistema econômico e social da ex-possessão inglesa. Todas essas reivindicações de liberdade de seu povo têm encontrado no intrépido bispo Zen o mais amplo apoio. Em 2 de maio, ele escreveu no jornal diocesano: ?Estão ignorando-nos, insultando-nos e privando-nos de nossos direitos?. A 4 de junho, na comemoração do massacre da praça Tiananmem, a cerca de 800 católicos, reunidos em oração, denunciou o bispo: ?Nós também tivemos o nosso 4 de julho, sem derramamento de sangue. Pediram-nos a ser tolerantes para salvaguardar a harmonia e a paz. Mas se renunciarmos ao nosso direito de falar, enquanto ainda podemos, então merecemos ser somente escravos!?. Em carta enviada agora ? 22 de novembro último ? aos responsáveis pelas escolas católicas, o bispo Zen determina ?ignorar? a nova lei de Pequim, que pretende exercer um controle total sobre a educação, marginalizando a influência da Igreja. O governo determinou criar, até 2010, um organismo de controle em cada escola, com um Comitê de administração, que vem a ser um representante do governo em cada estabelecimento de ensino. Esclarece o bispo que não é seu propósito afrontar o governo, e sim salvaguardar a tradição católica na educação e a liberdade educativa. Ele adverte que a lei aprovada no Parlamento em julho passado desmonta o sistema educativo de Hong Kong, que se demonstrou tão eficaz no passado e destrói a colaboração e a relação de confiança entre os responsáveis escolares (?sponsoring bodies?) e o governo. ?Com a nova lei, diz Dom Zen, já não teremos mais a garantia de trabalhar na escola, segundo nossa visão e nossa missão. Todas as escolas passarão à direta supervisão do governo?, ele adverte. É possível até que Dom Zen seja o tal Cardeal ?in pectore? da última nomeação de cardeais, feita pelo Sumo Pontífice. É tradição da Santa Sé, na eleição dos cardeais, ocultar ao público algum nome, geralmente por razões políticas, para não irritar seu governo... (*) É ARCEBISPO EMÉRITO DE MACEIÓ