Opinião
A bipolaridade por um bipolar
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A bipolaridade me aflorou aos 20. Tenho, hoje, 32. Hoje, controlada, aprendi a viver sozinho, e, nas catapultas da mente, vencer minhas depressões. Não as desejo, mas não mais as temo. Para um bipolar, formular a força dessa sequência mental é importante.
Como sei que os sérios psiquiatras gostam da literatura escrita a partir de relatos próprios de pacientes, lhes brindo em uma frase minha síntese sobre a depressão, lidada e tratada há já 12 anos: Profunda é a nossa escuridão. Quando delas falamos, escutem. Não há janelas nem O2: há nós mesmos. Mas, cedo ou tarde nos acostumamos conosco: assim pedem as existências. Cada bipolar que me ler saberá do que estou falando. As medicações existem, o tratamento, mas a alma, o pedaço indivisível do átomo é fundamental: quem me fez enxergá-la, pela primeira vez, foi um grande psicanalista que, ao ler esta frase, se reconhecerá. Trata-se, também, de afeto, porque o afeto também trata, quando não cura. Mas digo-me que, entre psicólogos, psiquiatras e analistas, foram mais de 10: para a minha fortuna, pois os estimo e muito. Fazer terapia se tornou a minha terapia. O filme todo é muito bonito: é uma espécie de torre mental, onde resgato, humanamente, minhas forças. Lembro-me das minhas primeiras sessões, aos 13, e da minha última. Meus terapeutas foram lampiões em todas as grandes crises de minha humanidade. Não só eles, evidentemente, mas, igualmente, eles. Todo bipolar deveria fazer terapia. É humano, somos todos, até que o primeiro alienígena nos prove ao contrário. Tanto se discute e se cogita nos agoras e nos segundos próximos. Lacan tinha uma frase que muito gosto: “o pensamento está em desarmonia com a alma”. Não podemos nos esquecer que, na ausência dos sentidos e raciocínios, encontramos a nossa. Deixo minha contribuição para o amarelo de setembro. Tarde, sim, mas se não fosse a depressão vencida, eu, talvez, nem escrito teria. Dou valor. Foram mais de 200 artigos no percurso, meu fôlego literário vem daí. Meu respeito ao jornalismo brasileiro, como cultura e identidade, é e sempre será eterno. Entrego-lhes minha meditação: E meu sopro de vida aos bipolares.