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Opinião

Os nordestinos

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Euclides da Cunha, em sua monumental obra “Os sertões”, descreve o Arraial de Canudos e a saga de Antônio Conselheiro. Ele escreveu: “Os nordestinos são antes de tudo uns fortes”. Antônio Conselheiro, embora de origem humilde, como a grande maioria dos nordestinos, era religioso fundamentalista e monarquista insubmisso, razão maior que o fez fundar o seu Arraial de resistência à nascente República, o que contrastava com os seus milhares de fiéis ali refugiados, todos miseráveis e famélicos. Exterminado o Arraial pelas tropas republicanas, seus sobreviventes migraram para o Rio de Janeiro, onde fundaram as primeiras favelas e o samba, principalmente no terreiro da célebre tia Ciata, maestrina também da culinária baiana.

Aquela pequena família humilde migrou de Canhotinho, interior de Pernambuco, para Palmeira dos índios, que então sobrevivia melhor aos efeitos devastadores da Grande Seca de 1915. O patriarca, um homem pequenino e muito firme, chamado Belinho, era barbeiro de profissão, tocava bombardino e era presbiteriano, numa época na qual os evangélicos contavam com poucas igrejas, na maioria pobres e muito criteriosas em suas finanças, eram uma minoria pouco significativa no cenário nacional e mais ainda no Nordeste. Ele fundou com um punhado de outros abnegados a primeira igreja evangélica de Palmeira dos índios na Praça as Casuarinas. Outro nordestino humilde, católico, contemporâneo do Belinho, mas nascido em Paulo Jacinto, ainda adolescente, juntamente com dois irmãos um pouco mais taludos, pegou um Ita pro Norte e foi em busca da seiva da borracha, meca de muitos conterrâneos para sobreviver aos severos rigores da seca. Numa parada do vapor em Santarém, antes do destino Manaus, os dois irmãos desceram para ver a feira e perderam a saída do Ita. Nunca mais os irmãos se encontraram. O mais novo, terminou sendo acolhido pelo coronel gaúcho Plácido de Castro, e conviveu de perto com as barbaridades da conquista do Acre, onde o sangue nordestino verteu em cântaros para conquistá-lo da Bolívia. Ao retornar, a cabeça nunca mais deu-lhe descanso, como a da maioria dos seus sobreviventes. O Nordeste marcou e marca a história do Brasil pela rica cultura, pela culinária, pelo povo acolhedor e trabalhador, pela participação na formação da riqueza de São Paulo, da construção de Brasília, da luta na Guerra do Paraguai e de lumens tutelares nos principais setores das atividades nacionais: Deodoro, Floriano Peixoto, Rui Barbosa, Delmiro Gouveia, Assis Chateaubriand, Padre Cícero, Don Helder Câmara,Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Jorge Amado, Ariano Suassuna, Rachel de Queiroz, Paulo Freire, João Cabral do Melo Neto, José Alencar, Nélson Rodrigues, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Manuel Bandeira, Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Gilberto Gil , Djavan, Alcione, Patativa do Assaré, Nise da Silveira, Maria da Penha e Zumbi, entre outros. O primeiro embaixador negro do Brasil, Raymundo Souza Dantas, de origem humilde, é apenas um entre tantos nordestinos que representaram bem o Brasil no mundo. Só temos motivos para nos orgulharmos. Somos nordestinos, como nossos pais e avós, temos filhos e netos nordestinos. A imensa maioria é honesta, trabalhadora, empreendedora e honra a memória dos seus antecedentes.

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