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Opinião

A religião e a Constituição

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Durante uma das incontáveis batalhas da longíssima Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), travada entre católicos e protestantes e que envolveu toda a Europa, com exceção da Inglaterra - causando mais mortes do que a soma das duas Guerras Mundiais do século 20 -, um jovem fidalgo espanhol chamado Inácio de Loyola foi gravemente ferido, o que o obrigou a recolher-se ao leito por anos, durante os quais mergulhou na leitura da Bíblia e da vida dos santos. Disso, veio-lhe a ideia de, ao se restabelecer, continuar combatendo, mas de forma diferente: lutaria pelo restabelecimento do prestígio da Igreja Católica, seriamente abalado pela Reforma Protestante de Martinho Lutero.

Lutero era um bispo católico que se insurgiu contra as vendas de indulgências pelos papas da família Médici, que cobravam caríssimo para perdoar os fiéis de seus pecados, fossem quais fossem; foram os mesmos papas florentinos que subsidiaram as obras de Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonarroti, entre outros do Renascimento. Os príncipes alemães e dos países baixos que adotaram as 84 teses de Lutero entraram em guerra com os países que se mantiveram fiéis ao Vaticano. Ao longo dessa carnificina, que envolveu mercenários que lutavam por quem lhes pagasse mais, independente de credo religioso, dizimaram-se cidades sem poupar mulheres e crianças, fazendas e plantações, causando tamanho caos que surgiram epidemias devastadoras, forçaram-se as emigrações de milhares de perseguidos para o Novou Mundo, mas nenhum país deixou de ser católico ou protestante. Inácio de Loyola, recuperado, acompanhado de um pequeno grupo de fidalgos espanhóis, instruídos e distintos, fundou a Companhia de Jesus, a ordem dos Jesuítas, para combater os desvios do catolicismo, única forma de restabelecer o prestígio da Igreja Católica, o que ficou conhecido como a Contrarreforma. Inácio de Loyola tornou-se um venerado santo da Igreja. Nesta semana, celebramos o Dia dos Médicos, cujo padroeiro é São Lucas, o evangelista, jovem sírio que no século I, dedicou-se a praticar a Medicina, devotando-se às crianças e às mulheres, aos despossuídos, aos pecadores, enfim ao cumprimento das parábolas de Jesus Cristo, como a do Filho Pródigo. Lucas, em grego, significa “Portador de Luz”. Ele é também o padroeiro dos artistas e pintores, pois algo os une: a empatia, a compaixão e o amor ao próximo. O Papa Francisco tem reiterado que a religião jamais deve ser uma ferramenta para criar muros, mas sim para construir pontes. Francisco tem se reunido com próceres de diversas denominações religiosas, inclusive islâmicas no sentido mais amplo do ecumenismo. O Estado brasileiro é laico, mas a Constituição Federal, no artigo 5º, VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos, e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. Garante, inclusive, o direito de não praticar nenhuma religião. Que todos, sem exceção, respeitem a religião e a Constituição, sempre.

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