Opinião
A gruta de bel�m
DOM FERNANDO IÓRIO * José, o carpinteiro e Maria de Nazaré estão com o menino nas palhas daquela miserável cocheira de Belém, no coração da gruta. É Jesus a quem Maria tem nos braços: é Jesus apenas esta criança, vez que ele carrega os rostos, as fisionomias e os semblantes de todas as crianças da Terra. Não é debalde que conhecida canção italiana pergunta: ?De que cor é o rosto de Deus?? Deus tem a cor de todos os rostos, de todas as raças, de todas as classes sociais porque o semblante de Deus possui a cor do amor. O Menino de Belém tem a cor do rosto pálido e esquálido da criança faminta: possui o rosto exangue da criança enferma... O Menino da gruta tem o rosto medroso e atemorizado da criança enjeitada e desprezada; possui o semblante envergonhado e encoberto da criança maltratada e sem veste; assume o rosto amordaçado e obnubilado da criança castigada; o rosto revoltado e desesperado da criança mendiga; reveste-se da feição amargurada da criança-vítima... sem deixar de revelar, vezes muitas, rosto sorridente da criança feliz e protegida. Ah! Tivéramos nós, adultos e mães de família, mestres e educadores, financistas e economistas, funcionários e chefes, teólogos e filósofos, operários e patrões... Ah! Tivéramos nós, como Maria e José, tempo para nossas crianças, para nossos filhos... Mas quando queremos, encontramos tempo para gerar crianças e não para educá-las, dignamente. Ter tempo é questão de preferência. Temos tempo e bastante tempo para negócios, os cartéis financeiros, para os bois, para os cavalos, para as máquinas, mas não para os filhos... Ter tempo é questão de preferência. Descobrimos tempo para as festas, para os ?drinks?, mas não temos tempo para alimentar uma criança. Gastamos tempo com problemas, os mais diversos, mas não com os problemas das crianças. Ter é uma questão de preferência. Servimos a todos os ?hobbys?, a todas as modas, a todos os esnobismos, mas não temos disposição para servir uma criança. Temos tempo de nos sentar, horas e mais horas, num clube, num bar, ao lado de uma piscina, mas não encontramos tempo para nos sentar no chão, com o filho pequenino. Encontramos tempo para um ?Whisky?, ou uma cerveja, mas não para tomar um guaraná com nossos filhos. Dispomos de tempo para conduzir a pasta de negócios, mas não para carregar uma criança nos braços. Não falta tempo para se contarem as contas bancárias ou os lucros nas aplicações financeiras, mas tempo não sobra para se contar uma história dos filhos. Daí tantos semblantes tristes e desfigurados de crianças diante da gruta de Belém. Felizmente, não faltam crianças felizes e sorridentes ao lado do Menino de Belém, tudo porque sentiram a ternura de pais com tempo disponível para os frutos do seu amor. Supliquemos a Maria e a José que nos devolvam o Menino do rosto novo capaz de transfigurar os semblantes amargurados de tantas crianças carentes, infelizes e abandonadas. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS