Opinião
Um santo europeu
DOM EDVALDO G. AMARAL * Após o final da II Guerra Mundial, vencedores e vencidos, uniram-se numa idéia única, sintonizando os interesses de todos: criar uma nova Europa. Ela nasceu particularmente do esforço de três grandes cristãos: Conrad Adenauer, da Alemanha (vencida), Alcides De Gasperi, da Itália (também vencida), Robert Schuman, da França (vencedora talvez? ). Os três, fervorosos cristãos, souberam inspirar-se nos princípios da fé para sua ação política. Seus países tiveram a sorte de tê-los como os governantes que reconstruíram a Europa, destruída pela guerra, auxiliados pelo Plano Marshall, com todos os seus defeitos e os equívocos de suas verdadeiras finalidades. A vida e a ação política de Robert Schuman, ministro do Exterior da França, foram tão inspiradas nos princípios da fé e da moral cristã que foi considerada conveniente e natural a instalação de seu processo de beatificação, que já foi concluído em nível diocesano em maio último. Os volumes dos testemunhos recolhidos, avaliados e julgados pelos juízes diocesanos, encheram 50 mil páginas, com o peso total de cerca de 300 quilos. Já foram transmitidos oficialmente à Congregação para as Causas dos Santos de Roma. Agora, se forem aprovados na Santa Sé, só se espera o milagre, que é a chancela de Deus para a heroicidade das virtudes do candidato ao reconhecimento oficial da Igreja mediante a beatificação, última etapa antes da canonização, isto é, da declaração canônica do beato inscrito no catálogo dos santos, proposto à imitação dos fiéis e apresentado a sua invocação. Será um acontecimento de grande repercussão mundial e uma confirmação da fé cristã dos pais da Europa moderna. Foi o próprio Schuman quem, em 9 de maio de 1950, propôs aos seis países, França, Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, pôr em comum a produção do carvão e do aço. A França e a Alemanha se reconciliaram naquela oportunidade e nasceu aí a Europa dos Seis, a primeira Comunidade Européia, hoje União Européia. Schuman exercitou o seu empenho político como um verdadeiro apostolado. Aplicava na vida pública os mesmos princípios da prática religiosa privada. Homem de profunda vida interior, jamais viu oposição entre fé cristã e ação sócio-política, embora fosse sempre convencido da distinção entre ambas ? atesta Eduardo Zin no Bollettino Salesiano de novembro. Em 1960, ele escrevia: ?Somos todos instrumentos, embora imperfeitos, da Providência Divina, que se serve de nós para os desígnios que estão acima de nós.? Numa corajosa profissão de fé cristã, hoje muito oportuna e atual, ele dizia: ?A democracia deve sua existência ao cristianismo?. E, afinado com o pensamento do papa João Paulo II e com todos os esforços da Santa Sé para o reconhecimento das raízes cristãs no Velho Continente, infelizmente frustrados na Constituição da União Européia, tão diversa de como Robert Schuman a sonhou, ele afirmou energicamente diante do Parlamento Europeu em 19 de março de 1958: ?Todos os países da Europa estão permeados pela civilização cristã. Essa é a alma da Europa, que precisa restituir-lhe.? Os inimigos do pensamento cristão como verdadeira base da cultura européia ? mãe da nossa cultura ocidental ? conseguiram vencer no texto do preâmbulo da nova Constituição da União Européia. Jamais, porém, poderão negar o cristianismo, que foi vivido com sinceridade e profundidade pelos pais da nova Europa, como o Servo de Deus Robert Schuman. (*) É ARCEBISPO EMÉRITO DE MACEIÓ