Opinião
Cartão vermelho .
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Nélson Rodrigues e Paulo Mendes Campos são dois entre tantos dos grandes cronistas brasileiros que adoravam futebol e escreveram sobre o esporte mais popular do planeta. Paulo, em sua obra “O Gol é necessário”, descreve uma missa em Ipanema marcada para uma hora antes do jogo da Seleção. Segundo o autor, muitos só frequentam a Igreja em dia de jogo do Brasil, mas o padre a estava estendendo bastante, e os fiéis remexiam-se, inquietos nos bancos. Um senhor, remexeu-se tanto procurando algo nos bolsos que chamou a atenção até levantar um cartão amarelo e o acenar discretamente para o padre. O oficiante, ao invés de agastar-se com o gesto profano, sorriu, comunicando, para alívio geral, que ninguém perderia a partida dos brasileiros com os argentinos.
Nelson Rodrigues no livro “À sombra das chuteiras imortais”, descreve que depois da derrota para o Uruguai na final de 1950, o doloroso “Maracanazo”,ficamos com um complexo de inferioridade, batizado pelo genial Nélson como “Complexo de vira-latas” e só perdemos a sensação e nos livramos do pessimismo depois da conquista da Copa do Mundo na Suécia em 1958, quando surgiu para o mundo o Rei Pelé, então com 17 anos. Em seguida, ganhamos o bicampeonato no Chile em 1962, sem Pelé, contundido e com uma equipe envelhecida, onde Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol, tinha 38 anos, e Garrincha ganhou a Taça como protagonista solitário. Não se menospreze a França, atual campeão do Mundo, que estreou muito bem no Catar sem Benzema e outros titulares. A Espanha, com uma equipe brilhante e renovada e a Inglaterra --- sede da excelente Premier League --- estrearam muito bem Termina a primeira semana da Copa do Mundo do Catar e algumas surpresas alegraram o torcedor nacional, que tanto necessita de descontração e animação: a derrota da Argentina para a Arábia Saudita deu ao torcedor nacional tanta alegria quanto uma vitória do nosso escrete. É sadismo? É, faz parte do futebol. Os memes logo lotaram as redes sociais, torcedores inspirados lançavam memes que botavam os argentinos pedindo a FIFA para anular o jogo e exigiam que os gols fossem impressos...Estreamos vencendo e convencendo contra a Sérvia. Os brasileiros necessitam de distrações que o afastem das recentes e injustificáveis perturbações emocionais. E o futebol é a melhor opção. As arenas esportivas continuam sendo um espaço adequado para as manifestações pacíficas e em defesa dos direitos humanos, como se observa mesmo no Catar, uma retrógrada ditadura: a equipe do Irã, uma teocracia radical e desumana, protestou em campo contra a discriminação e opressão feminina. A Inglaterra também em campo, contra a discriminação e os preconceitos, e seu maior ídolo, Henry Keane, foi proibido de usar a braçadeira LGBT, em defesa das divergências e da tolerância ,a bandeira de Pernambuco foi assediada por suposta alusão à divergência . A Alemanha, mesmo perdendo para o Japão, também se posicionou em campo pelas liberdades civis e aí, foi vitoriosa. A Copa do Mundo começa com as zebras do Gentil Cardoso soltas, mas a defesa e a vitória das democracias e suas manifestações humanísticas estão consolidadas no esporte. A violência e a ignorância receberam e receberão cada vez mais cartão vermelho de fora e de dentro das arenas esportivas.