Opinião
Veio morar entre n�s
DOM FERNANDO IÓRIO * Aquele que, eternamente, era, veio, agora, a ser Aquele que, eternamente, não era. Deus não quis ficar, unicamente, Deus. Resolveu fazer-se, também, criatura. Quis dar-se, quis oferecer-se. Deus se dá a si mesmo. Mas, dar-se sig- nifica a existência de alguém diferente que O possa receber. Esse alguém foi criado, capaz de receber Deus: é o ser humano. Interessante é que, dentre os seres humanos, repousou o olhar divino sobre o judeu-Jesus de Nazaré. Nele Deus estará, absolutamente, presente. O ser humano, a partir de então, só tem sentido pleno, enquanto for sacrário de Deus. Portanto, quando Deus se autodoa, de todo, a alguém, estamos diante da encarnação divina, da encarnação de Deus que se faz gente, como nós. E houve o sagrado momento em que Deus se aproximou daquela virgem toda pura; bateu, carinhosamente, a sua porta, pedindo-lhe para morar e viver na casa dos seres humanos. A Virgem disse: sim, existe lugar para Deus no meu ventre. Daí por diante, a vida divina começou a crescer no mundo, no seio de Maria. Em certa noite, completou-se o tempo. No silêncio da gruta, entre o arfar silencioso do asno e o mugir extenso e prolongado do boi, Deus nasceu. Nasceu Aquele que pessoa alguma jamais vira, Aquele por quem suplicavam os seres humanos. Permanecendo o Deus que sempre era, assumiu o ser humano que nem sempre fora. Deus não quis ficar no Seu Mistério indecifrável: Ele deixou para trás Sua luz inacessível e veio para as trevas humanas, penetrando a fragilidade do homem. Não quis atrair para dentro de si a humanidade; ao contrário, deixou-se Ele atrair para dentro da humanidade. Penetrou o diferente para tornar-se aquilo que, eternamente, não era. Natal é a festa que nos mostra, realmente, aquilo de que Deus é capaz. Pode Ele fazer-se outro, isto é ? um ser humano, como um de nós, sem deixar de ser Deus. São Francisco entendeu, mais do que ninguém, a festa do Natal, quando o Verbo de Deus se fez carne e a carne se fez Verbo: pedia que todos comessem, nesse dia, carne, fartamente, que se jogassem sementes pelas estradas, para que tivessem as aves do céu o que comer, que todos se lembrassem de que somos irmãos uns dos outros, presenteando-se mutuamente, porque Deus nos dava um Presente sem preço: a doação de si mesmo num Menino. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS