Opinião
Ano-Novo e Paz .
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A passagem do ano de 1999 para o ano 2000 suscitou medos, fantasias e outras profecias catastróficas, sob o pretexto de uma mudança de milênio. O “desastre” foi anunciado para sábado, 1º de janeiro do novo ano. Os aviões iriam cair, as usinas nucleares explodiriam em seus silos e nada que estivesse sujeito a um sistema de computador funcionaria. Era o Bug do Milênio. Já em 1988, os sobrevivencialistas americanos alardeavam: “Quando o relógio marcar o ano de 2000, o país ficará sem eletricidade, os trens não circularão mais, os bancos entrarão em colapso e hordas de moradores da cidade procurarão comida”. E o astro pop Prince cantou: “Quando eu acordei essa manhã de 1o de janeiro de 2000/ O céu estava todo roxo, havia pessoas correndo por aí/É o dia do Julgamento Final”
Um montante de cerca de US$ 300 bilhões foi gasto por empresas de todo o mundo para revisar arquiteturas de computadores. Na França, o Crédit Agricole gastou 140 milhões de euros, enquanto a France Telecon, 60 milhões. Uma simples mudança de números fez o mundo acreditar que estava entrando em uma nova era. O suficiente para despertar medos ancestrais que, com a ajuda da internet, contaminaram a mente das pessoas como um incêndio. Aquele medo global se baseava em uma mudança de dois números - de “19” para “20” -, que não seria levada em consideração pela maioria dos hardwares e softwares. A partir de 1º de janeiro de 2000, os equipamentos poderiam exibir a data de 1º de janeiro de 1900, causando graves acidentes e mau funcionamento. Até o costureiro Paco Rabane prometeu que a estação espacial russa Mir cairia sobre nossas cabeças, mas era tudo só fake. Como curiosidade, registre-se que o século 20 terminou em 31 de dezembro de 2000 e não em 31 de dezembro de 1999. O século 21 começou em 1 de janeiro de 2001, porque não existe ano zero na era cristã. O medo é uma característica humana e tem sido usado de forma inescrupulosa na política com finalidades inconfessáveis. Freud afirmava que era para isso que servia a civilização, para organizar as coisas humanas, para limitar ou para restringir as ameaças devidas à causalidade da Natureza, à fraqueza do caráter e à inimizade do próximo. Os medos de passagem do Ano-Novo atualmente só existem no Brasil, e por culpa daqueles que botam fogo e bombas nas ruas e querem implantar o caos no país. Deixá-los impunes será um grande estímulo para mais vandalismo e mais terror. No antigo calendário da China, o Ano-Novo é 4721 e será dedicado ao coelho, um símbolo de longevidade, paz e prosperidade. O de 2023 no Brasil poderia ser o Ano da Ema, a maior ave brasileira, dócil, acolhedora e inclusiva: o macho choca os ovos da companheira. Ela usa as grandes asas só para se equilibrar. A ema é pacífica, otimista e resiliente, como a nossa democracia.