Opinião
Rumos da pol�tica
RUYTER BARCELOS * A história republicana brasileira viveu inúmeros sobressaltos em sua trajetória. Os fatos podem ser apresentados como fundamentais para o amadurecimento político nacional na medida em que permitiram reflexões, ensinamentos, autocrítica e correções de rumos para as instituições envolvidas, mas carregam elevada carga de controvérsias em seu bojo como, por exemplo, as intervenções militares. Neste contexto, os últimos vinte anos têm sido de crescimento para a tenra democracia brasileira, onde os dois momentos mais críticos foram vividos sem a presença dos quartéis nas ruas: o impeachment do presidente Fernando Collor e a ascensão ao poder máximo de um partido de esquerda, um fato inédito na história republicana. Ainda no período analisado, o que se observa é que os partidos políticos viveram em função de lideranças carismáticas como Getúlio Vargas, Leonel Brizola, Tancredo Neves, dentre outros, e os militantes, em sua maioria, não foram reunidos por idéias, princípios ou programas, mas atraídos pelo poder político gerado a partir de tais ícones. Assim, é interessante observar que política designa a esfera das ações que faz alguma referência direta ou indireta à conquista e ao exercício do poder soberano em uma comunidade de indivíduos sobre um território, entendido o poder como a capacidade que um sujeito tem de influenciar, condicionar, determinar o comportamento de outro. A constatação é que o Brasil possui grandes líderes, mas partidos políticos frágeis, pois se migra de partido de acordo com os interesses pessoais daquele momento ou influenciado pela liderança emergente. O programa político-partidário, as idéias e as crenças não são a pedra de toque na atração dos cidadãos. Hoje, o que se observa é que o mais importante é permanecer no poder, não importando os meios. Historicamente, a relação de poder político é apenas uma das muitas formas de relação de poder existente entre os homens, onde três critérios distintos a caracterizam: a função que ela exerce, os meios dos quais se serve, o fim ao qual tende. Sobre o último, em se tratando da relação entre governantes e governados, deveria ser o bem comum, mas, por vezes, o que se verifica é o bem próprio. Uma constatação clara desde Aristóteles: ?o bom governo é aquele que se preocupa com o bem comum, o mau olha o próprio bem, vale-se do poder para satisfazer a interesses pessoais?. Outro escritor que está muito presente na política republicana brasileira é Maquiavel quando aborda o objetivo de conservar o poder e os meios para tal fim. Neste sentido, o princípio de que os pactos devem ser observados, as promessas cumpridas, pertence à moral, mas o escritor comenta que os ?príncipes? que fizeram grandes coisas não seguiram tal princípio e permaneceram no poder. Fica a dúvida: manter os pactos ou fazer grandes coisas? Sugere o texto que aquele que respeitar os pactos pode perder o poder? Uma dicotomia que Max Weber captou com a distinção entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. Na primeira, o dever consiste em respeitar os princípios de conduta e assumir as conseqüências de seus atos. Na segunda, ao atingir os resultados desejados, seu dever foi cumprido. Um julgamento que, ao tornar relativa a moral, justifica o agir político e permite que os meios não tenham o mesmo conteúdo moral que os fins a que se destinam ? uma distorção. Para que se retorne ao cerne da questão, o Brasil necessita de partidos políticos fortes, centrados em convicções, na ética de princípios, pois a de resultados pode servir ao interesse pessoal e não ao bem comum, sujeita aos desvios de conduta, ao poder pelo poder. A democracia brasileira agradecerá. (*) É EMPRESÁRIO