Opinião
N�meros desanimadores
HUMBERTO MARTINS * Os ricos ? famílias que ganham um líquido em torno de R$ 10 mil ?, no Brasil, representam menos de 5% da população. É importante ressaltar o líquido porque o arrocho fiscal e o furor tributário a que estão submetidos os brasileiros reduzem um faturamento bruto a 60% do seu valor. O restante é confiscado para financiar serviços que não são prestados devidamente, tais como segurança, medicina pública, educação e afins. Os pobres se aproximam dos 80%, porque não se pode considerar remediado o indivíduo que com o seu trabalho ou sua aposentadoria recebe menos de R$ 260, que é a remuneração mínima, da qual é retirada a habitual parafernália de descontos. Submetida a esse regime de emagrecimento, a classe média empobreceu de forma generalizada em 2003, conforme documentam alguns estudos, entre eles o do economista Waldir Quadros, da Unicamp. De acordo com Quadros, ?mais de 2,5 milhões de pessoas deixaram a classe média ? integrantes de famílias com renda média superior a R$ 1.000 ? ano passado.? Com esse rendimento supostamente de classe média ? R$ 1.000,00 ? o chefe da casa tem que se alimentar e à família, financiar a habitação, a energia, a água, comprar roupas, calçados, remédios, material escolar, prover o transporte e outras inúmeras despesas. Em torno de 57 milhões de brasileiros integravam famílias com essa renda ? R$ 1.000,00 ? em 2002. Em 2003, espremidos pelas agruras do orçamento doméstico, eram 54,4 milhões, no conjunto de uma população de 173 milhões. A classe média, que representava 33% da população total em 2002, passou a 31% em 2003. Conforme o estudo do economista da Unicamp, 928 mil pessoas deixaram a classe média alta e outras 680 mil ?que se enquadravam na classe média em 2002 já não puderam ser incluídas no grupo ano passado?. ?Nem a classe média baixa escapou: perdeu 980 mil membros. A maioria absoluta foi para as classes econômicas inferiores?, pondera o estudo da Unicamp. A revelação de tais números sugere que os saldos na balança comercial, os superávites fiscais e outros fenômenos econômicos, feitos de acordo com a orientação do Fundo Monetário Internacional (FMI), ainda não apresentaram os desejados resultados, pois a classe média, que é um tradicional amortecedor das tensões na vida nacional e de qualquer país, está encolhendo entre nós. O estudo da Unicamp divide a população em seis classes ? classe média alta, média média, média baixa, massa trabalhadora, pobres e indigentes. O número de integrantes da classe média alta ? renda superior a R$ 5.000 ? reduziu-se em 13% ano passado. De 3,96% da população em 2002 a 3,38% em 2003. São números desanimadores. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ/AL