Opinião
Ignor�ncias fatais
Nas entrelinhas das chocantes notícias sobre a catástrofe das tsunamis na Ásia, várias informações despertam a atenção para particularidades da vida naquela parte do mundo. Uma dessas notícias dá conta dos índios da Índia. Como esclarecem os livros de história, quando Colombo chegou ao Novo Mundo, queria crer que estava na Índia, daí batizou os viventes locais como ?índios?. A denominação veio a generalizar populações autóctones (oriundas das terras onde se encontram, sem resultar de imigração ou importação ? explica o Aurélio), também chamadas ? mais tarde ? de aborígines, e tudo isso virou sinônimo de um nível mais atrasado de desenvolvimento, etc. Os territórios da Índia sempre fascinaram os ocidentais pela filosofia ancestral e sofisticada que marca aquelas áreas de civilizações milenares. E a tragédia das tsunamis fez o mundo lembrar, ou tomar conhecimento de que a velha e civilizada Índia tem lá suas tribos, tal qual indígenas mais primitivos das Américas (desconsiderando aqui as civilizações do tipo Inca, Asteca, Olmeca...). E o pior é que essas populações autóctones indianas podem ter desaparecido do mapa. Os arquipélagos indianos de Andaman e Nicobar são o habitat de tribos como o povo Shompen, considerado um dos grupos mais avessos ao contato com o mundo exterior. Uma das ilhas da região de Nicobar, chamada Trinket, foi partida ao meio pelo maremoto ? segundo especialistas ouvidos pela BBC ? e a maior parte das ilhas próximas estaria submersa. Segundo a Sociedade Ecológica para Andaman e Nicobar, as tsunamis teriam atingido os aborígines na época do ano em que eles vão às praias cedo, pela manhã, para caçar tartarugas ? justamente a parte do dia em que ocorreu a tragédia. O governo indiano contesta a informação e diz que os povos dessa área estariam refugiados em regiões mais altas, mas não foram apresentadas evidências ou provas de uma ou outra hipótese. Em resumo, podem ter sumido populações indígenas inteiras e ninguém respondeu ainda a essa indagação. Como tem alertado a ONU, a extensão do desastre pode ter sido bem maior que o suposto até agora. E a falta de capacidade, ou de condições, de dimensionar corretamente o desastre pode ser um dos fatores de multiplicação do sinistro, em função da imprecisão na elaboração dos planos de socorro. De quantas pessoas seriam compostas essas comunidades indígenas? Quantas dessas pessoas estariam desaparecidas, quantas estariam precisando de ajuda? Em pleno século XXI, descobrimos ? mais uma vez ? o quanto continuamos ignorantes sobre a natureza e sobre nós mesmos.