Opinião
Religiosidade popular
DOM EDVALDO G. AMARAL * A festa do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, com a tradicional procissão fluvial a realizar-se em nossa vizinha Penedo no próximo domingo e, em outras datas, em muitas das nossas cidades ribeirinhas do Rio São Francisco, leva-nos a refletir algo sobre a religiosidade popular. Ensina-nos o Catecismo da Igreja Católica que, além da liturgia sacramental, a vida cristã alimenta-se de variadas formas de piedade popular, enraizadas nas diferentes culturas. A Igreja, preocupada em iluminá-las com a luz da fé, favorece as formas de religiosidade popular, que exprimem natural sentimento evangélico e sabedoria humana que enriquecem a vida cristã. Há necessidade de um discernimento pastoral para sustentar e apoiar a religiosidade popular e, se for o caso, purificar e retificar o sentimento religioso que serve de base a essas devoções, para fazê-las progredir no mistério de Cristo. Sua prática está sujeita ao cuidado e julgamento dos bispos e às normas gerais da Igreja. O Catecismo exemplifica as mais comuns manifestações dessa piedade popular, como a veneração das relíquias dos santos, as visitas aos santuários, as peregrinações, o Rosário de Nossa Senhora, a Via Sacra, as medalhas, as promessas, etc. A Conferência dos Bispos em Puebla, em 1979, também citada no Catecismo, entende como religiosidade popular ou catolicismo popular ou religião do povo ou piedade popular, o conjunto de crenças, atitudes e expressões tiradas da fé católica e assumidas pela maioria do povo latino-americano, sobretudo os pobres e os simples. Puebla citou como principais crenças desta religiosidade: o sentido da Providência de Deus Pai, a consciência do pecado e a necessidade de sua expiação; a fé situada no tempo (festas dos padroeiros) e no espaço (santuários famosos), o valor da prece, dos sacramentos e dos sacramentais, com um acento especial às bênçãos, tão desejadas e solicitadas pelo povo. Como atitudes mais características do catolicismo popular, Puebla enumera a consciência da dignidade pessoal e a fraternidade solidária, a capacidade de celebrar a fé de várias formas expressivas e comunitárias pelos cantos, gestos, cores, danças, o gosto pelas procissões e romarias, o respeito e afeto aos pastores, ao bispo e ao papa, como aos missionários populares, os frades e os ?santos? que o povo canonizou. Os elementos negativos da piedade popular que estão a exigir a vigilância dos bispos são: uma idéia deformada do poder dos santos, com exagerada valorização e exclusividade do culto deles, com detrimento ao mistério redentor do Cristo; exagero de promessas, algumas delas ridículas, referentes a roupas e cabelos das crianças e feitas para que outros as paguem; uma piedade interesseira e a pouca valorização dos sacramentos, considerados mais como ritos mágicos; formas variadas de sincretismo religioso e freqüente recurso ao espiritismo. A sábia atitude pastoral que a Conferência de Puebla preconiza é a de favorecer as expressões religiosas populares, com a participação de grandes massas pela força evangelizadora que possuem. Hoje eu diria que ao invés de missas-show, dê-se preferência a shows com evangelização, separando-os da santa missa, como momento sagrado final do show. Puebla proclama categoricamente: ?Não se prive o povo de suas manifestações de piedade. Caso se tenha de mudar algo, proceda-se gradualmente e com adequada catequese.? A piedade popular deve respeitar os elementos culturais locais. Procurem-se prudentemente as reformulações e reacentuações necessárias, diante da emergente cultura urbano-industrial globalizada e globalizadora. (*) É ARCEBISPO EMÉRITO DE MACEIÓ