Opinião
O Bloco da Legalidade .
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Chega fevereiro e com ele chega Momo, a política e as Instituições parecem requerer uma trégua, mas a história sempre está no seu camarote: era manhã de sábado de Carnaval de 1956, e, enquanto a cidade cantava e relaxava com os grandes sucessos daquele ano, de Zé Keti, “Eu sou o samba” e “ A turma do funil”, ainda hoje um hit popular “Chegou a turma do funil/todo mundo bebe/mas ninguém dorme no ponto/Eh eh, nós é que bebemos e eles que ficam tontos”, o major Haroldo Veloso e o capitão José Chaves Lameirão, invadiam a Base Aérea dos Afonsos, arrombavam o seu depósito de munição, retiravam do hangar um avião de combate entupido de armas e explosivos, e decolavam na direção de Jacareacanga, minúscula guarnição da Força Aérea Brasileira no estado do Pará.
Os dois militares eram udenistas fanáticos, veneravam Carlos Lacerda, estavam indignados com as eleições presidenciais de outubro de 1955 e pretendiam levar a cabo um plano alucinado: montar um foco de sedição no Brasil central e dar início à guerra civil. O presidente que os oficiais da Aeronáutica queriam derrubar fora empossado há menos de um mês: Juscelino Kubitschek, o JK, vindo de uma carreira de prestígio, construída dentro do PSD mineiro - deputado federal, prefeito de BH, governador de MG. No entanto, apesar do currículo e de já estar eleito, a briga para tomar posse foi imensa. A conjuração foi atribuída a Carlos Lacerda e a militares radicais, o golpe de Estado estava em andamento com a colaboração de ministros poderosos de Café Filho, que assumira a Presidência com o suicídio de Vargas. A pedra no sapato dos golpistas era um militar com perfil estritamente profissional, obcecado pela disciplina, pela hierarquia e que contava com a lealdade irrestrita da tropa, o marechal Henrique Teixeira Lott. Era, além disso, um legalista impecável. Enquanto estivesse no comando, não haveria chance de conspiração golpista dentro do Exército. A alucinada conjuração, apenas uma entre tantas na nossa história, demorou 20 dias, mas foi superada e JK governou democraticamente. Em março de 2021, ocorreu o inédito afastamento dos comandantes das três Forças, Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica), Ilques Barbosa (Marinha) e Edson Pujol (E), que em novembro de 2020 havia declarado publicamente: “Os militares não querem fazer parte da política, muito menos deixar a política entrar nos quartéis”. Um dia antes, o ministro da Guerra, general Fernando Azevedo, havia deixado o cargo. O atual comandante do Exército, general Tomás Ribeiro Paiva, sinaliza ser um profissional na mesma tradição legalista demonstrada por eles e por Lott, que o Brasil e o mundo respeitam. Ainda em 1956, a Mangueira consagrava na avenida o samba-enredo “Exaltação de Mangueira”, de Enéas Brites e Aloísio Augusto - “Mangueira, seu cenário é uma beleza/que a natureza criou” - e a marchinha de Jota Carvalho - “Quem sabe, sabe/Conhece bem/ Como é gostoso gostar de alguém”. O Brasil neste Carnaval de 2023 vai desfilar alegremente no “Bloco da Civilidade e da Pacificação”, prendas reconquistadas com a redemocratização de 1988 e que com muito esforço se tornarão uma tradição nacional, dignas de serem celebradas diariamente.