Opinião
Antropólogos no Carnaval .
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Perto da Cadeira Gigante, a prefeitura da cidade montou um quiosque onde se destaca: “Insistiu, Forçou, Desrespeitou: Assediou!”. É uma postura afirmativa dos direitos e limites atuais nos relacionamentos entre homens e mulheres, naquela que é a maior festa popular brasileira, na qual, pouco tempo atrás, um presidente da República foi fotografado no camarote da Sapucaí com uma modelo desprovida de calcinhas, o que, mesmo se tratando de um solteirão, deslumbrado pela beleza da moça e entusiasmado pelo consumo de whisky, quase o derrubou do governo, sobrando o afastamento para o ministro da Justiça, que também estava embalado por Baco.
Aquela inspiradora modelo usava uma ousada moda então em vigor: o bottomless (sem fundo), extrapolação do topless, moda de desnudar os seios em público, então em uso contumaz nos bailes e mesmo nas praias do Rio de Janeiro nos anos 80/90. Nos grandes e requintados bailes do Rio, nos anos 80, como no do Avaí no Iate Clube, da boate Regine’s, do Quitandinha e do Copacabana Palace, o sucesso dos bailes - segundo as narrativas da principal revista daquela época, a Manchete - era medido pela previsão da relação entre mulheres e homens presentes. O mínimo tolerável era de 3 mulheres para um homem, sendo o ideal de 5 para 1. O antropólogo Roberto Da Matta publicou no final da década de 70 um livro que se tornou um clássico: “Carnavais, Malandros e Heróis”. Para Da Matta, o carnaval sempre foi um lugar de questionamento da norma, do padrão, da forma habitual de viver o cotidiano, e da libertação das repressões. Reflexo da sociedade, se, no passado, a festa questionava temas tabus como a nudez e a sensualidade. Hoje, o debate é sobre feminismo, racismo e a quebra de preconceitos, inclusive nas próprias músicas e marchinhas tradicionais. Para o antropólogo, esse questionamento é válido, desde que traga conscientização. Dizem os estudiosos da obra de Da Matta: “O carnaval tinha centro muito grande em temas tabus, como nudez, sensualidade, envolvimento das pessoas, liberdade e igualdade. Hoje, estamos criando uma sociedade muito mais livre e igualitária. Nossa briga no campo político é fazer com que o país seja mais justo; hoje, o carnaval está trazendo mais as estereotipias. Mesmo que esteja fazendo censura, tem um importante papel, porque conscientiza as pessoas”. Presumo que é dentro dessas premissas que o quiosque da prefeitura foi montado
Na semana passada, tivemos um belo desfile dos blocos Casuadinha, infantil, Rolinhas e Peçinhas. Neste sábado, teremos o Pinto da Madrugada, todos na linda orla da Pajuçara e da Ponta Verde. Foliões e famílias se divertem e entre eles muitos são os que cantarolam baixinho a música do Chico Buarque: “Carnaval, desengano/ Deixei a dor em casa me esperando/ E brinquei e gritei e fui vestido de rei/Quarta-feira sempre desce o pano”. Salve o carnaval e as prévias carnavalescas de Maceió, que ocupam o Jaraguá e a nossa orla com uma tradição já estabelecida de civilidade e paz, com muita música e muita alegria.