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Opinião

Memórias do Carnaval .

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Era uma tarde de clima ameno naquele junho de 1950 no Rio de Janeiro, nem de longe lembraria a sensação térmica de 50ºC observada recentemente lá, nem os -70ºC no Canadá, e não ocorrera nenhum grande terremoto na Turquia ou na Síria. No Maracanã lotado, com 180 mil pessoas, o Brasil depois de vencer a Suécia e a Inglaterra goleava a Espanha por 6x0 e a multidão exultante começou a cantar o grande sucesso do Carnaval daquele ano: “Eu fui às touradas em Madrid/Paratibumbum/ E quase não volto mais aqui/ Pra ver Peri beijar Ceci”.

Era a Copa do Mundo e em um canto da arquibancada, um senhor grisalho chorava copiosamente. Ao Vê-lo, um homem forte, alto e grosseiro esbravejou: “Só me faltava essa! Esse gringo chorando aqui! Vai-te embora pra Madrid!” O “gringo” era o João de Barro, o Braguinha, compositor da marchinha “Touradas em Madrid” e tantos outros sucessos. Ele formava o trio de ouro das marchinhas com Haroldo Lobo e Lamartine Babo, compositor que notabilizou-se também por compor os hinos de todos os grandes clubes cariocas, com capricho especial para o do seu coração, a América. Anteriormente, a morte do Barão de Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, uma semana antes do Carnaval de 1912, fez o Brasil cair no luto. No Rio de Janeiro, uma multidão chorosa fez fila no Palácio do Itamaraty para ver o seu cadáver e o acompanhou até o Cemitério do Caju, onde o ministro foi enterrado com honras de chefe de Estado. Dada a comoção generalizada, os clubes que organizavam bailes à fantasia acharam que seria desrespeitoso promover a esbórnia em pleno período de luto e decidiram cancelá-los em cima da hora e remarcá-los para a semana da Páscoa. O problema é que, para os foliões mais afoitos, um mês e meio seria uma espera longa e torturante demais. Uma semana depois, quando chegou o Sábado de Zé Pereira, concluíram que o luto de uma semana era suficiente, vestiram as fantasias e foram se esbaldar. Na Semana de Páscoa, voltaram às ruas e comemoraram novamente. Naquele ano, o Rio de Janeiro teve dois carnavais. Na década de 70, o paraibano Ariano Suassuna e o maestro Cussy de Almeida liderariam os vizinhos pernambucanos, que voltariam a discutir profundamente os seus traços culturais, através do Movimento Armorial. A proposta era divulgar a arte nordestina na música, no teatro, na literatura e nas artes plásticas. Pode-se dizer que o Quinteto Violado e Antônio Nóbrega, ainda brilhando, são frutos daquele movimento. Pernambuco investiu em sua cultura popular e, hoje, folguedos como os Caboclinhos, supostamente originários de Alagoas, somados aos maracatus urbanos e rurais, aos frevos de rua e de bloco com seu lirismo, se mantêm como exuberante polo do maior festejo popular brasileiro.

Alagoas fez prévias animadas e concorridas em Maceió, Penedo e outras cidades. Neste ano elas foram especialmente exuberantes, como era de se esperar depois de dois anos de pandemia, assim como ocorreu em 1919 depois da devastadora Gripe Espanhola. Segundo os historiadores, aquele foi o “Carnaval do Século”. Razões não faltam para os foliões brincarem em 2023. Esperemos que seja com muita música, muito amor e muita paz.

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