Opinião
Ato de amor e ética .
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A observação de documentos anciãos catalogados pela Medicina registram que há mais de mil anos na China as pessoas já raspavam as crostas de lesões cicatriciais em pacientes acometidos pela varíola, as punham na pele e nas narinas das pessoas, principalmente em crianças, com a intenção de evitar que tivessem aquela temível doença que exterminava 1/3 das populações infetadas e principalmente os menores de idade, suas maiores vítimas.
Eles não entendiam o que acontecia, mas a observação mostrava que isso evitava que grande parte dessas pessoas, principalmente as crianças, contraíssem a varíola e morressem. No longo cerco de Constantinopla pelos Otomanos, quando epidemias de varíola assolaram ambos os lados, usou-se esse método, chamado “variolação”. Por volta de 1718, numa altura em que a Europa era abalada por uma forte epidemia da enfermidade, Lady Mary Montagu, esposa do então embaixador britânico em Constantinopla (atual Istambul), que tinha sido infetada pela varíola, tendo seu rosto ficado bastante deformado, ao tomar conhecimento dessa prática, decidiu variolar o filho. Quando regressou à Inglaterra, deu conhecimento aos seus amigos e a membros da família real, que também resolveram se submeter a esse método. Catarina, a Grande, imperatriz da Rússia, que vivia sobressaltada pelo seu filho e por ela mesma poderem vir a ser infetados pela doença (o seu marido, Pedro III, tinha escapado, mas ficara com marcas no rosto e na cabeça que lhe causavam intensa instabilidade), chamou o médico inglês Thomas Disdale, que praticava o método, para submeter-se e a família ao mesmo. Edward Jenner, em 1796, na Inglaterra, observando esses acontecimentos e depois de anos de estudos, contaminou algumas pessoas com um estrato colhido de vítimas da varíola da vaca, que era mais amena, tornando-as imunes à mortal varíola humana. A vacina era oficialmente criada. A Medicina, além de ser curativa, alcançava um patamar ainda mais sublime, o da prevenção. Jenner não tinha conhecimentos de imunologia, nem de vírus ou bactérias, mas possuía aquilo que Luís Pasteur, que posteriormente inventou a vacina contra a raiva, registrou: “Nos campos da observação, o acaso favorece apenas as mentes preparadas”. A varíola foi uma das doenças que durante séculos exterminou centenas de milhares de pessoas, independente de estratos sociais e continentes, como o imperador romano Marco Aurélio, o rei Luís XV, da França, e o imperador chinês Fun-lin. Abraham Lincoln e Beethoven foram contaminados, mas escaparam. Poliomielite e sarampo foram erradicadas pelas vacinas. Rubéola, difteria e tétano passaram a ser controladas. Doenças graves, como a tuberculose e o câncer do colo do útero, podem ser evitadas pelas vacinas. Convivi com muitas e muitos colegas que enfrentaram corajosamente a pandemia de Covid-19, lutaram pelas vacinas e tenho muito orgulho deles. As vacinas alcançam dois dos três postulados da ética: 1) foram planejadas para proporcionar o Bem das pessoas; (2) elas proporcionam o Bem coletivo. Atualmente, além da observação, temos as evidências científicas. Amparados nelas, iniciou-se a vacinação bivalente para o Covid-19. A vacinação é uma ação ética para a ciência, assim como é um ato de Amor ao Próximo para o Cristianismo, pois ela evita sofrimentos e mortes.