Opinião
Lutero
DOM EDVALDO G. AMARAL * Disse alguém, com um pouco de acrimônia, que Lutero foi o adubo que a Providência Divina escolheu para fazer a árvore da Igreja tornar-se outra vez viçosa e cheia de vigor. Por dois séculos, ouviu-se na cristandade o clamor: ?Reforma na cabeça e nos membros!? Não se pode negligenciar, para uma reta compreensão deste período - dos mais conturbados na História da Igreja - das duas rivalidades então cada vez mais acesas: entre a Alemanha e Roma, apesar da existência do Sacro Império Romano- Germânico e o atrito existente entre as duas ordens mais prestigiosas da época, os dominicanos, liderados por João Tetzel, e os agostinianos, liderados por Martinho Lutero. Foi essa desavença entre as duas ordens, famosas por seus sábios teólogos, que fez exclamar alguns dos auxiliares do papa Leão X, diante das primeiras notícias da agitação vindas da Alemanha: ?Isso não passa de uma querela de frades...? O filme ?Lutero?, em exibição nas principais cidades do país desde o Natal, patrocinado pela Igreja Luterana, por intermédio de sua agência de ajuda, a Diaconia, mostra com grande realce as mazelas da Igreja no século XVI e provoca a discussão sobre sua controversa pessoa e sua atuação na história daquele século. A película cinematográfica põe nos lábios do dr. Lutero, de forma caricatural, numa aula da Universidade de Wittemberg, uma série de ironias a respeito do culto católico às relíquias na Alemanha, cujos exageros nenhum historiador sério pretende negar. No filme, ficam amenizadas ou totalmente omitidas as graves perturbações psíquicas do pretenso reformador, seu desmedido orgulho, suas superstições ainda medievais com a paranóia da presença do Diabo em toda parte, sua arrogância como professor, a ponto de escrever a um amigo que, por causa de suas aulas e seus estudos, não tinha mais tempo nem de celebrar missa nem de rezar o Ofício Divino. Sem pretender ocultar os erros dos papas daquele período: Alexandre VI, devasso e mais príncipe que pontífice, Júlio II, guerreiro e mais general que sacerdote, Leão X, mecenas e mais amante da arte que pastor de almas, a vida de Lutero, criticamente examinada, dá-nos os elementos necessários para uma reta compreensão daquele momento difícil da vida da Igreja, que felizmente desabrochou na verdadeira Reforma, espiritual, pastoral e santificadora da Esposa de Cristo no Concílio de Trento (1545-1563). Foi graças à provocação, aos erros doutrinais e desmandos morais do agostiniano da Saxônia, que a Igreja de Jesus, no início da Idade Moderna, encontrou finalmente o caminho de sua purificação e santificação. A personalidade complexa de Martinho foi assim traçada por um historiador sério e isento: extraordinária força de imaginação ? veemente paixão em todas as suas ações e empreendimentos ? ternura de afetos ? praticidade de organização ? linguagem virulenta e vulgar, sobretudo em seus escritos da mocidade ? sensibilidade poética e musical, que o acompanhou desde a infância em Eisleben ? arroubos místicos e ódio implacável ao papa e a tudo que fosse romano ? sugestionabilidade e teimosia ? exaltações e depressões ? pavor doentio do diabo e da condenação eterna, de que se julgava merecedor, como chegou a confessar à esposa. Contemplando as estrelas do firmamento, confidenciava-lhe Catarina Bora: ?Veja, Martinho, como o céu é bonito? ? Ao que ele respondeu: ?Sim, mas não é para nós!...? Tais elementos contraditórios da psique de Lutero ofereceram material abundante à exaltação dos amigos e à denigração dos seus adversários, que não foram poucos. Em próximos artigos, veremos sucintamente a atribulada trajetória da vida desse monge, teólogo e agitador social. (*) É ARCEBISPO EMÉRITO DE MACEIÓ