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Opinião

A incapacidade de pensar .

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Hannah Arendt foi uma prestigiada professora universitária e filósofa judia alemã que, retida numa prisão nazista durante a Segunda Guerra Mundial, conseguiu fugir e chegar aos EUA. Lá, foi convidada a continuar a lecionar até que um dos maiores carrascos nazistas, Adolf Eichmann, foi capturado na Argentina, onde se refugiara, e levado para ser julgado em Israel. Arendt foi então contratada para cobrir o julgamento para o semanário New Yorqer Magazine.

Aquele julgamento, realizado alguns anos depois da guerra, foi cercado por imenso interesse internacional. Ali se julgaria um dos mais perversos criminosos de guerra da história da humanidade. As suas conclusões eram esperadas com inusitada expectativa. Contudo, as observações de Arendt, durante o julgamento e, principalmente, depois dele, em uma obra chamada “Eichmann em Jerusalém”, causaram intensa polêmica, incompreensão, revolta e perseguições oriundas até mesmo da comunidade judaica e de Israel.

Todos esperavam que Arendt apresentasse o retrato de um monstro clássico. Hannah, todavia, mostrou que Eichmann não seria exatamente um antissemita raivoso, mas apenas um funcionário medíocre que, nos limites de sua função, executara a indústria da morte de milhares de crianças, mulheres e idosos inocentes, e cujo único crime era a ascendência judaica. Ela constatou nele a incapacidade de pensar, uma despreocupação negligente, um não envolvimento com os fatos, a indisposição com a realidade e a repetição de verdades vazias. Um alguém que recebera ordens e as cumprira sem constrangimentos. Nessa obra de Arendt, surgiu o conceito de “Banalidade do Mal”, tão importante em filosofia e ciência social desde então.

A mais recente pesquisa do IPEC traz informações como a de que 44% da população brasileira acredita que o comunismo - ameaça eliminada do mundo desde a queda de Berlim, há mais de 33 anos - quer tomar conta do país e de que 31% acha que isso é um risco imediato. Essa é uma amostra de que a incapacidade de pensar de uma fração da população, junto com a ignorância do assunto, tem sido utilizada nos últimos anos por aqueles que fizeram uma lavagem cerebral nessa população, e paralelamente exerciam uma despreocupação negligente e um não envolvimento com as atrocidades cometidas durante a pandemia de Covid-19. Essa é uma enganação elaborada maldosamente para manipular essa população vulnerável: em minha opinião, não existem ameaças comunistas. Mas existem as ameaças do crime organizado, como ocorre em Natal e com o PCC ameaçando servidores públicos, autoridades públicas e suas famílias, e felizmente nesse último caso as instituições democráticas funcionaram e impediram a concretização dos tenebrosos crimes planejados. A pesquisa IPEC, todavia, traz-nos um alento: a maioria da população está exausta da radicalização política e quer uma alternativa mais racional e moderada. As manipulações de pensamentos exercidas sobre a população podem estar a perder terreno para a realidade, como uma das consequências da manutenção da nossa democracia.

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