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Opinião

Lira dos vinte anos .

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A penumbra que recai sutilmente sobre a escrivaninha cuidadosamente talhada pelo artífice, aos poucos vai-se esvaindo qual poeira por entre aos mãos, reverberando-se num silêncio sepulcral, dando lugar doravante ao breu da noite, com todo seu misticismo. Nesta amálgama temporal inerente a existêcia humana, com seus devaneios e loucuras, a mão trêmula do vate faz deslizar airosamente a pena por sobre a pálida folha, que aos poucos emoldura uma lídima aquarela travestida de legível soneto. Dos amontoados escombros de pretéritas lembranças, que insistem povoar a imaginação humana, surgem ávidos sentimentos que paulatinamente se materializam em borrões de tinta, trazendo à guisa os primeiros versos cadenciados, qual lira a ecoar seus incipientes acordes sonoros, num monólogo quase que etéreo.

Sob o cintilante raio de luz que se espraia da finissina vela de cera, ladeada por amealhados papéis e não menos antiquissimas anotações, os sussuros intermitentes do poeta são ouvidos por este apenas, reproduzindo sonoramente os versos dolentes que perpassam seu pensamento e se assomam no esbranqueado papel, num testemunho indelével de êxtase intelectual em câmara ardente. No proposital intervalo entre o delírio poético que anima a psiquê humana e a corporificação de sua obra, o vinho que embriaga o espirito é desgustado amiúde, qual nécta derramado nas aras celestes dos Deuses olimpianos. Nestas horas mortas da existência humana, a repicar pausadamente no alto da parede de tijolos sobrepostos, dando conta de um arcaico relógio que insiste em continuar a bater, numa beligerânia temporal quase que inglória.

A fina garoa que recai por sobre a deserta rua, nos resquícios de uma gélida madrugada encorberta de empalamada neblina, traz consigo dolorosas reminiscências guardadas em segredo no âmago do poeta, num frenesí surreal. Qual platéia a ovacionar o intérprete com sonoros e vibrantes aplausos, o bardo recebe os mais lídimos encômios dos fantasmas que povooam sua imaginação, após exaustivo labor de sua criação literária. Ser poeta é um mistério abstruso, destino final de alguns mortais que nos atalhos da vida aceitaram esta missão, compelidos a uma vivência de solidão e nostalgia, numa sempre dubiedade entre a lira e a espada. E nas sinuosas estradas de sua efêmera existência, adstrito ao destino imposto como punição e glórias terrenas, o poeta eterniza sua obra entre os labirintos e encruzilhadas que lhe são instados a trilhar, perdido em devaneios que lhe servem de fanal numa interminável procura, fazendo coro ao soneto lusitano de Fernando Pessoa: “Suave é viver só/ grande e nobre é sempre viver, simplesmente/ [...] vê de longe a vida/ nunca a interrogues/ [...] a resposta está além dos Deuses.”

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