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Opinião

As sandálias .

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Um dos maiores gênios de nosso país, o antropólogo potiguar Câmara Cascudo tinha o hábito de estudar todos os dias, sem exceção. Ele tinha uma cozinheira antiga que trabalhou 40 anos em sua casa. Certo dia, ele estava estudando e a cozinheira preparava o almoço. O assistente de Câmara Cascudo, que estava ao lado dela beliscando as panelas, falou: “Grande professor, esse homem é um gênio!” A cozinheira respondeu: “Eu não acho. Faz 40 anos que estou com ele e todo dia vejo ele estudar!”

Ninguém duvida que Leonardo da Vinci e Isaac Newton, por exemplo, foram gênios. Qual seria a fonte da genialidade? Acredito que, de um modo geral, as pessoas que entendemos como gênios são aplicadas, dedicadas, trabalham com afinco e profundidade naquilo que fazem. Portanto, não são apenas pessoas que nasceram com a capacidade especial pronta. A fonte da genialidade é estudar sempre. Gênio é aquele que é capaz de estudar sempre e verificar se está no caminho certo. A cozinheira de Cascudo não conseguira entender que ele não era gênio porque nascera deste modo. Era gênio porque estudava todos os dias, sem exceção. A genialidade, como outras habilidades excepcionais, é construída. E sua fonte é estudar e se atualizar sempre. Mesmo os dotados dessa excepcional possibilidade precisam ter humildade intelectual. Humildade não é ser subserviente. Uma pessoa subserviente é aquela que se dobra a qualquer coisa, que se acovarda. Isaac Newton e da Vinci ensinavam e sabiam que estavam aprendendo. Só é um bom professor quem é um bom estudante. Humildade intelectual é entender que ninguém sabe tudo o tempo todo de todos os modos. A pessoa que tem humildade intelectual é aquela que não se torna arrogante. Destarte, presumo que a vitória do presidente Lula nas últimas eleições decorreu de um conjunto de circunstâncias - algo como uma frente ampla e não ideologizada em defesa da democracia e de suas instituições, da ciência, da informação e do meio ambiente, da redução da polarização, contra a radicalização, a desinformação e a favor da moderação, da pacificação e da civilidade - e nesse pacote estava o tradicional e respeitável histórico de independência política e ideológica da diplomacia brasileira, o que estaria ameaçado com um indesejável alinhamento em favor do bloco China-Rússia na indefensável invasão da Ucrânia e em outras questões geopolíticas críticas. Para uma parcela dos que o elegeram, como para o país os interesses nacionais são soberanos, e os estudiosos dessa questão pedem humildade, serenidade e moderação na condução de questões tão importantes. O país está farto de arroubos de arrogância, venham de onde vierem e pede que se usem as sandálias da humildade.

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