Opinião
A música e a nossa saúde .
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Sabe-se que o primeiro instrumento musical foi uma rústica flauta de madeira, elaborada por pastores de ovelhas que se inspiraram nos pássaros que cantavam nas árvores desde o nascimento do Sol até o arrebol. Segundo a Bíblia, o poderoso rei Saul só conseguia sair de suas profundas crises de depressão quando o pastor de ovelhas Davi, filho de Jessé, vinha de Belém para tocar-lhe a arpa. Na mitologia, apenas ela conseguia interromper a pena dos condenados à dor eterna, configurada na figura de Orfeu, o tocador de Lira.
Aristóteles e Platão já exaltavam os benefícios da música para o ser humano. Platão dizia que “a música é o grande remédio da alma” e Aristóteles dizia que “as pessoas que sofrem de emoções descontroladas, depois de ouvirem melodias que elevam a alma ao êxtase, regressam ao seu estado normal, como se tivessem experimentado um tratamento médico”. Com tantos problemas sérios, esse cara vem com essa conversa? Perguntarão alguns, com certa razão. Mas, segundo Goethe, “não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que a arte”. Há portanto um longo caminho na sua proteção aos que sofrem: Asclepíades, de Prussa, respeitado médico grego que trabalhou em Roma no século 1o a.C., foi o primeiro a utilizá-la no tratamento de alterações mentais, hoje um reconhecido apoio. Através dos séculos, inúmeros relatos vêm documentando sua atividade benéfica, como efetiva ferramenta auxiliar. Também no Renascimento se acreditava que ouvir os grandes compositores clássicos trazia benefícios ao bem-estar das pessoas que, naquela época, tinham o privilégio de ouvi-las ao vivo. No final da Segunda Guerra Mundial, os músicos foram chamados a diversos hospitais para ajudarem na recuperação das vítimas. Mas foi apenas nos últimos 50 anos que os cientistas se dedicaram mais intensamente à procura de respostas. São vários os estudos feitos em renomadas universidades, como em Utah e Michigan - sem deslembrar a excelente obra nacional do prof. Carvalhal Ribas “Música e Medicina”, de 1950 - sobre os benefícios da música para diversas enfermidades, como o Parkinson e o Alzheimer, e aqui, principalmente se o cuidador for um parente. O Prêmio Camões ser, afinal, entregue ao compositor Chico Buarque de Holanda - e “Apesar de Você”, como diz seu verso -, esse magnífico artista tão incrustado no coração e na memória afetiva nacional é um momento glorioso. Até João Cabral do Melo Neto, poeta que era insensível à música, ao assistir ao seu “Morte e Vida Severina” musicado por Chico Buarque de Holanda, ficou encantado e entregou os pontos. “A música tem encantos para abrandar o coração mais selvagem”, escreveu W. Congreve, o que é indispensável para um país tão intoxicado por discursos de ódio e hostilidades gratuitas. Salve Chico Buarque de Holanda, salve todos os que apreciam a música, dela se nutrem e nela se inspiram para sobreviver e para as boas e saudáveis práticas humanísticas!