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Opinião

Difícil semear a democracia em terreno tão árido

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Um terremoto de intensidade 7,3 na escala Richter, portanto devastador, ceifara a vida de 250.000 haitianos, exigindo cooperação de muitos países para evitar o caos social e o descontrole na segurança.

Naquela manhã, dias após o sismo, velhos, mulheres, crianças se empurravam em uma fila gigantesca à espera de comida e água fornecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Nos caminhões estacionados fora do Estádio Nacional de Porto Príncipe, soldados brasileiros e americanos da força de paz formavam duplas para agilizar a entrega, enquanto patrulhas agiam contra saques.

Inacreditável que mulheres tão esquálidas tivessem força para transportar sacos de 60 quilos de arroz em equilíbrio instável sobre suas cabeças, enquanto ocupavam uma das mãos com garrafas de água potável e com a outra puxava filhos desnudos.

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Passados pouco mais de dez anos, a missão se extinguiu, a estabilidade tentada é quimera, as gangues voltaram, o presidente foi assassinado, o congresso extinto.

O Haiti, exemplo de desorganização do Estado na concepção moderna, instiga-nos a refletir se o mundo caminha para a construção da paz e estabilidade social ou voltará ao tempo no qual imperava o nacionalismo cevado pela fricção das civilizações ou, mais longe, das invasões bárbaras.

A Carta das Nações Unidas, assinada em 1945, foi alento ao mundo pós-Segunda Guerra Mundial.

No preâmbulo, destaca a missão de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, reafirma a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres.

Invoca, ao final, a promoção do progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla.

Mas até quando essas proposituras quase utópicas se sustentarão? A Carta aparentemente não vislumbrava os contenciosos hodiernos. O ideal primário da ONU ficou obsoleto?

O Sudão, por exemplo, vive uma guerra civil fratricida. As recentes imagens na televisão nos apavoram. Homens armados se impõem pela violência dos fuzis Kalashnikov a disparar para o alto, quando não, contra adversários indefesos.

Na Etiópia, o conflito na região de Tigray, com mais de 600.000 mortos contabilizados por organizações ligadas à União Africana, está esquecido pelas mídias tradicionais.

A invasão da Rússia à Ucrânia reacende um imperialismo adormecido desde que a queda do muro de Berlim rompeu com a bipolaridade no planeta.

Como os atores globais se observam diante dos conflitos de agora e se preparam para os desafios futuros?

A análise do problema nos leva a uma dúvida existencial.

A democracia - como instrumento de legitimidade da vontade de um povo e ideal secular - treme pela falência do Estado ou o Estado treme pela fraqueza da democracia?

Admitindo-se a falência do Estado, será necessário um freio de arrumação interno com reflexos nas relações externas dos países?

Nações mais fortes poderiam assumir a responsabilidade colonial de impor razoabilidade de comportamento às mais fracas?

Ao revés, se o doente é a própria democracia, aceitaríamos a perda de liberdade temporária para ultrapassar a tormenta?

O monstro de Hobbes, em sua obra Leviatã, seria alçado ao poder, definindo o papel do cidadão e a organização da sociedade?

O mundo, à deriva, não encontra respostas a essas dúvidas. Ou talvez já as tenha e não queiramos enxergar.

Enquanto países se queixam junto à ONU, com olhar afunilado no passado em busca de ajuda no presente, aceitam que outros se digladiem, liberdades sejam frustradas, a fome se torne instrumento de regulação da natalidade e o planeta se inviabilize ambientalmente.

As tribos cresceram. A distância geográfica as tornou egoístas. A religião as afastou da razão. A ideologia as afastou da liberdade.

Mas há esperança. Paradoxalmente, não sem luta.

Como disse Bobbio, em sua magistral obra O Futuro da Democracia: considero ter conseguido manter viva, em que pesem os muitos desenganos, a paixão e, com ela, a confiança no mundo em que a democracia possa se expandir e se reforçar não só no interior dos Estados particulares, mas também no sistema Internacional.

A democracia se mostra resiliente mesmo onde a aridez do terreno dificulta semeá-la.

Concordo com Bobbio, há esperanças.

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