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Opinião

Democracias sem engodos .

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O livro “Como as Democracias Morrem”, de Steven Levistky e Daniel Ziblatt, conceituados professores de Harvard, tornou-se um best seller e um clássico desde o seu lançamento, em 2018, e sempre que o tema democracia e sua sobrevivência vem a lume, ele serve de subsídio principal, pois traz uma análise histórica bastante provocante sobre os fatores que derrubaram regimes democráticos ao longo da história, principalmente nesses anos recentes em que as democracias consolidadas passaram por um desgastante e preocupante recesso .

Democracias tradicionais entram em colapso? Essa é a questão que os dois autores respondem durante o transcurso da obra, principalmente depois que Trump assumiu o poder na principal democracia do mundo e ela passou pelos seus piores momentos desde a sua fundação; para isso comparam o caso de Trump com exemplos históricos de rompimento da democracia nos últimos cem anos: a ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 30 à atual onda populista de extrema-direita na Europa, passando pelas ditaduras militares da América Latina nos anos 70. Os autores alertam: a democracia atualmente não termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou de um golpe militar; agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas - como o Judiciário e a imprensa - e a erosão gradual de normas políticas de longa data. Nesta semana, em Brasília, durante a realização da cúpula dos mandatários sul-americanos, as declarações proferidas pelo presidente Lula enaltecendo a existência de democracia na Venezuela, um sistema político condenado por desrespeito aos direitos humanos pelo Alto Comissariado da ONU, que ocasionou 7 milhões de refugiados políticos dispersos pelo mundo, entre outras mazelas, foi um erro que causou rejeições generalizadas da direita e mesmo da esquerda democrática, através de Gabriel Boric, jovem presidente do Chile.

Pragmaticamente, justifica-se a reaproximação e o acolhimento da Venezuela no seio das nações sul-americanas democráticas, pois o intercâmbio mercantil internacional independe de posicionamentos ideológicos, como respalda a posição dos EUA em relação à Venezuela e outros países autoritários, além de que todos os esforços devem ser feitos objetivando propiciar condições que reduzam o sofrimento da população venezuelana, maior vítima do autoritarismo de Chavez e Maduro, mas isso não justifica que Lula idealize ali uma suposta democracia.

Lula precisa se conscientizar de que uma parte considerável dos eleitores que o elegeram pela 3ª vez o fizeram porque enxergavam nele a opção para manter a nossa democracia, que pelos critérios solidamente consolidados pela obra de Levitsky e Ziblatt, estive permanentemente ameaçada no Brasil. Sistemas autoritários, ditaduras, mesmo que disfarçadas, sejam de direita ou de esquerda, são e serão sempre muito piores do que as democracias, por mais defeitos que elas possam ter, pois no mínimo podemos mudar os seus dirigentes a cada 4 anos.

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