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Opinião

Contra a realidade .

Marcos Davi Melo - médico e membro da Academia Alagoana de Letras e do IHGAL

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Natália Pasternak é doutora em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Instituto Questão de Ciência, primeiro instituto brasileiro para promoção de pensamento para promoção de pensamento crítico e racional e de políticas públicas baseadas em evidências. É uma das cientistas nacionais mais conceituadas entre a comunidade científica internacional e tornou-se membro do prestigiado Commitee for Skeptical Inquiry, tendo recebido vários prêmios internacionais por promover a ciência também em jornais e plataformas destinadas a leigos.

O último livro de Pasternak, “Contra a Realidade”, lançado no ano passado, depois de exuberante atuação em defesa da ciência na pandemia de Covid-19, é uma obra que, embora consubstancialmente subsidiada em ciência e história, é bastante acessível e saborosa para a leitura de leigos que queiram se informar. Nesse livro, ela cita um trecho da obra “História”, de Heródoto (428-425 AEC), quando o rei persa Xerxes ordenou a construção de uma ponte sobre o estreito de Dardanelos, um braço de mar que separa a Europa da Ásia, conhecido na Antiguidade Clássica como Helesponto, para que seu exército pudesse atravessar para continuar as suas conquistas, todavia, uma tempestade destruiu a ponte e uma parcela importante de suas tropas. Escreveu Heródoto: “Quando Xerxes soube disso, ficou extremamente enfurecido. Ordenou que o mar fosse punido com trezentas chicotadas e jogou nas águas um para de correntes, também marcou o Helesponto com ferro em brasa e ordenou que os responsáveis pela construção fossem decapitados, tendo ainda sido as águas alvo de bárbaras imprecações”. Essa narrativa de Heródoto é considerada a mais antiga e famosa reação irracional da inconformidade de uma figura de poder (no caso, Xerxes, rei dos persas) diante de fatos da natureza. Embora não configure exatamente uma instância de negacionismo - a destruição da ponte pela tempestade não chegou a ser negada -, a reação do monarca foi, em muitos aspectos, típica do que veríamos nos milênios seguintes, quando o poder político , econômico ou religioso foi confrontado com uma realidade inconveniente: xingamentos, acessos de fúria e punição descabida de profissionais competentes. Já a indiferença das águas do Helesponto às punições impostas pelo monarca traz uma lição perene que os negacionistas de todas as eras ignoram por sua própria conta e risco - e, mais grave, em detrimento de seus povos, empresas e nações: a natureza não liga para os sentimentos e as crenças populares. Negacionismo, tal como definido atualmente, é a atitude de negar, para si mesmo e para o mundo, um fato bem estabelecido ou consenso científico, como foi o caso da campanha contra as vacinas durante a pandemia de Covid-19, que além dos prejuízos e de mortes evitáveis, ainda tem como consequência direta a redução dos primorosos níveis de vacinação de nossa sociedade, uma conquista decorrente de décadas de dedicado trabalho da comunidade científica brasileira, com a indispensável colaboração e participação da imprensa nacional.

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