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Opinião

A fake news e a Medicina .

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Era um amigo de infância que os afazeres da vida distanciam e que me procurou alguns anos depois. Estávamos ambos formados em Medicina. Mas a sua aparência era a de um homem muito mais velho, resultado do desgaste de anos de tabagismo e de um câncer de pulmão, diagnosticado já em fase avançada, com metástases, como é o comum nesse tipo de câncer e que lhe causavam intenso sofrimento.

Infelizmente, embora os meios de diagnóstico e tratamento tenham evoluído bastante, esse tipo de câncer, principalmente pelas dificuldades de se fazer diagnóstico precoce, ainda apresenta altíssima letalidade. A melhor abordagem que a Medicina pode oferecer é a prevenção, realizada através de programas de informação, como o fez o ministro José Serra, resultando em grandes reduções dos percentuais de tabagistas no Brasil, o que foi considerado um modelo de ação de saúde pública pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A história revela que a evolução da Medicina ocidental passou por quatro períodos: o primeiro foi o Período Religioso, onde a Medicina foi conduzida mormente por sacerdotes, cujo poder para efetivar a cura somava aos seus conhecimentos terrenos a capacidade de auferir o beneplácito da divindade. Nesse período, esses sacerdotes se comprometiam a dar assistência médica gratuita aos necessitados nos períodos de guerra, bem como aos viajantes enfermos. O Segundo Período teve na Grécia antiga a sua origem, quando se passou a tratar questões éticas de forma distanciada do ponto de vista religioso, destacando-se Hipócrates e seu Corpus Hipocraticum, conjunto de 60 obras, entre as quais estão o célebre Juramento.Platão e Aristóteles, foram as principais fontes de Hipócrates para a sua obra ainda hoje referencial. Tivemos o terceiro, o Período Monástico, que ocupou toda a longa Idade Média, quando a religião voltou a predominar e a Medicina voltou a ser exercida em locais dirigidos por religiosos e se tomava a doença como um castigo, voltando-se, portanto, à reparação dos pecados como tratamento das enfermidades. Atualmente, a Medicina tem se esforçado para trabalhar em cima de verdades constadas experimental ou empiricamente. É a Medicina Baseada em Evidências, um consenso da comunidade científica universal. O Brasil já foi um modelo mundial de boas práticas da Medicina, não só pelo exemplar programa de combate ao tabagismo do ministro Serra, como pelo programa de vacinação de doenças infectocontagiosas do SUS, que volta a ser valorizado pelo bem da nossa população e pela preservação de suas vidas. Meu amigo de infância e colega médico - como mais de 1 milhão de vítimas semelhantes a cada ano - poderia estar vivo se não fumasse. Contudo, as fake news são uma ameaça imensurável à sobrevivência dos marcos civilizatórios indispensáveis ao ser humano, como a preservação da saúde e da vida humana, da ciência e da democracia. É essencial que a sociedade e as instituições do Estado Democrático de Direito enfrentem as ameaçadoras fake news com o rigor de todas as ferramentas da democracia.

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