Opinião
Secretaria das culturas
MARCIAL LIMA * Quando o escritor Artur da Távola assumiu a Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro e acrescentou dois esses na denominação de sua pasta, não estava, simplesmente, fazendo um jogo de palavras, mas tornando visível a diversidade cultural carioca; afirmando, inclusive, que, além de pluralizar, necessário se fazia descentralizar ações, definindo como prioridade - em busca de atingir maior parcela da população - os pequenos projetos que tinham valor social agregado: ?Sou muito mais a favor de gastar dinheiro com o processo de que com eventos?. Na época, o historiador Marco Aurélio Garcia passava a gerir em São Paulo a secretaria da mesma área, afirmando que a produção cultural deveria estar a serviço da cidadania, porquanto, desde o advento das leis de incentivo, o critério de mercado vinha se insinuando perigosamente, e cada vez mais: ?Eventos têm que ser conseqüência. Evento pelo evento não tem sentido: aí não seria secretaria de Cultura, seria de entretenimento?. E continuava: ?A inclusão da periferia no circuito cultural é uma de nossas prioridades; assim teremos a socialização dos bens culturais. Queremos a valorização da produção localizada, pois temos uma infinidade de atividades que vivem isoladas e não encontram meios de expressão. Os equipamentos culturais devem extravasar sua base física, criando pontos para os quais possam irradiar criatividade?. Objetivando esse desejo ? e a partir de uma pesquisa realizada pela Coordenadoria Especial da Juventude e pelo Centro de Estudos da Cultura Contemporânea - o município de São Paulo criou o Programa de Valorização das Iniciativas Artístico-culturais, destinado a atender, principalmente, jovens de baixa renda e de bairros desprovidos de equipamentos culturais, estimulando, dessa forma, a criação, o acesso, a formação e a participação do pequeno produtor, fortalecendo e desenvolvendo as dinâmicas culturais locais; momento em que se iniciou, conforme nos informa o Instituto Polis, ?a discussão de mudanças da lei municipal de incentivo à cultura, invertendo a lógica da grande maioria desses instrumentos legais?. Essas questões vieram-me à mente quando o escritor Francisco Valois, pelo telefone, disse-me o quanto ficou impressionado com o artigo ?Retornando ao Povo?, aqui publicado em 30/12/2004; fato confirmado em seu discurso de posse na Fundação Municipal de Ação Cultural, quando falou, inclusive, em definir prioridades, romper com privilégios e ressuscitar a Cominc; o que me fez lembrar Viviane Senna quando, em certa ocasião, separando o mero desperdício do dinheiro público do investimento de qualidade, citou James Coleman: ?Um povo só ostenta um nível de capital social elevado quando, gerando e mantendo coesão no interesse comunitário, se mostra capaz de estabelecer objetivos de médio e longo prazos, uma vez que o imediatismo é um insaciável devorador de horizontes e perspectivas?. E como estou em dia de lembranças e citações, recordo Enrique Iglésias, presidente do BID, em um pronunciamento de 1997: ?Há múltiplos aspectos na cultura de cada povo que podem favorecer o desenvolvimento econômico e social; é preciso descobri-los, potencializá-los da realidade que são de sua essência e que, até agora, foram geralmente ignorados?. (*) É ATOR E PROFESSOR