Opinião
Severino e a 232
MARCOS DAVI MELO * Se a eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara configurasse um avanço, por pequeno que o fosse, na crucial questão de o Legislativo se aproximar um pouco mais do que se espera dos representantes eleitos pelo povo, seria motivo suficiente para festa, mesmo entre aqueles que torcem para que o governo de Lula dê certo. Se a Medida Provisória 232, que pretende aumentar os impostos das pequenas e médias empresas, tivesse como destino dos tributos arrecadados a aplicação correta em projetos de desenvolvimento econômico e/ ou social, mesmo nós, que já somos mais do que espoliados pela ganância do Leão, aceitaríamos, mesmo contrafeitos, a mais uma vez engolir o sapo. Mas como é do conhecimento geral, a eleição de Severino para a presidência da Câmara se deu muito mais por erros de condução do processo por parte do PT e do governo. Erros repetidos, como arrogância, autoritarismo, desprezo pela opinião da maioria do próprio partido, desprezo pelo baixo clero e claro - corporativismo. Infelizmente, a assunção de Cavalcanti ao terceiro cargo mais importante do País não se deu por nenhum motivo nobre, tal como a defesa de ?aspirações populares?. O maior exemplo é que a plataforma mais conhecida do novel presidente é a dobradinha corporativa: aumento de férias e de salários dos parlamentares; o que no atual contexto nacional é para dizer o mínimo, uma aberração. Como também é do conhecimento geral, a MP 232 que objetiva aumentar a arrecadação do governo tem como destinação maior o suprimento dos notórios e crescentes gastos estatais, sem que em nenhum momento se tenha pensado com seriedade no prejuízo que esta medida causará numa das parcelas mais produtivas e saudáveis da sociedade brasileira: as pequenas e médias empresas e seus trabalhadores. Entre os trabalhadores destas pequenas e médias empresas, estão cerca de 200.000 médicos de todo o País, que só ganham algum dinheiro quando trabalham duro; eles não têm férias remuneradas, FGTS, muito menos aposentadorias pelo sacrificado INSS e isso, ao que parece, ao invés de ser considerado pelo governo uma notável contribuição desta fração tão produtiva quanto sã da sociedade ao desenvolvimento nacional e desta forma incentivado, é motivo de penalização. Mas, por frustrante que seja o seu desempenho, a Câmara pode mostrar, de imediato, que não legisla só em causa própria: a rejeição da MP 232 pode lhe restituir um pouco da desgastada credibilidade. (*) É MÉDICO