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Opinião

Compromisso da Medicina .

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O que é a Medicina? Para Pedro Nava, consagrado como um dos maiores historiadores nacionais e também médico, é “antes de tudo, conhecimento humano. E este está tanto nos livros de patologia e clínica, como nas obras de Proust, Balzac, Rabelais, poetas de ontem, de hoje, nos modernos como nos antigos”. Conhecimento humano é uma ferramenta que tem sido usada para o bem e para o mal.

Disraeli, o político conservador britânico que entrou auspiciosamente para a história, aceitou pleitos da esquerda porque constatou que estavam certos, mas também porque assim evitaria conflitos e esgarçamentos sociais desnecessários; era o conservadorismo pluralista de Burke. Depois disso, Disraeli escreveu: “Termos consciência que somos ignorantes é um passo para o conhecimento”. Em Medicina, a posse do conhecimento tem uma perspectiva impar e traz uma responsabilidade única: o seu uso deve beneficiar a coletividade, e em um pais como o Brasil, onde a maioria da população depende do Sistema Único de Saúde (SUS), e em Alagoas, onde 87,2% dos seus habitantes dependem exclusivamente do SUS para viver ou morrer, essa questão extrapola esferas políticas, ela é absolutamente de ordem moral e ética. A Medicina deve ser totalmente independente e afastada da política partidária ou ideológica. Seu vínculo é com a ciência e com o Código de Ética médico. Fui formado em uma universidade pública, bancada com os impostos de todos os brasileiros, inclusive daqueles mais pobres, que jamais terão essa oportunidade, e o mínimo que posso fazer em retribuição é usar os meus conhecimentos e tudo o que estiver disponível e ao meu alcance para atende-los da melhor forma possível. A população carente depende muito de nossa atividade. Sabemos que o câncer tem na prevenção e no diagnóstico precoce as suas armas mais eficientes. A dificuldade maior enfrentada pelos pacientes do SUS é conseguir isso. Quando eles conseguem atravessar o nó górdio das consultas em ambulatórios, UPAs, exames complementares, biopsias e precisam de um hospital capacitado para trata-los, a maioria enfrenta uma via crucis, que leva meses ou anos. Muitos sucumbem pelo caminho, por não conseguirem enfrentar tantos desafios. O papel do gestor público, então, é viabilizar tempestivamente o acesso dos pacientes a um hospital que os possa tratar adequadamente. Em meus 48 anos de formado, jamais enfrentei uma situação na qual depois de todo esse sofrimento, visse os pacientes conseguirem o diagnóstico e ainda ficarem reféns de uma burocracia kafkiana, insensível ao seu sofrimento e às suas sobrevivências. Do Talmude vem o axioma: “A coisa principal da vida não é o conhecimento, mas o uso que se faz dele”. Daí, é impossível para os que têm compromissos com a Medicina e com a sociedade ficarem omissos e deixarem essa desumanidade persistir, sem ao menos ser-lhes solidários com a única arma que dispõem, o conhecimento da situação e o que se pode fazer com ele.

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