Opinião
PERFUME DE SAUDADE .
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Ela chegou, num momento festivo, de alegria, em um ambiente musical, agradável e descontraído e, do nada, trouxe de volta o assunto, relembrando a brusca e inexplicável partida de seu filho, tão jovem, desse nosso espaço terreno, explicando como encarou e reagiu àquela dura realidade.
Falou, como sempre, de uma forma leve, suave, com um enorme sorriso nos lábios e um brilho intenso no olhar, próprio de pessoas que são especiais.
Senti-me, mais uma vez, incomodado ao lembrar do sentimento de impotência e da ausência total de iniciativa, da falta de coragem que tomou conta de mim, no momento em que fui ao cemitério, no dia do sepultamento, com a intenção de abraçá-la, encostar minha cabeça em seu ombro e, segurar fortemente suas mãos, para tentar passar a força que na verdade não tinha, embora imaginasse ter, para aquela pessoa querida, que no meu modo de ver, mais um engano de minha parte, deveria estar desesperada.
Fiquei distante, observando atentamente as pessoas ali presentes, seus semblantes, suas reações e comportamentos, os mais diversos, alguns até incompatíveis com o momento, tentando interpretar os sentimentos, entender o que acontecia ao meu redor e justificar o que eu estava sentindo, de forma tão perturbadora, naquele momento.
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O incômodo não cessava, era cada vez maior. Certamente, não tinha eu, capacidade suficiente para entender tamanha grandeza e maturidade de espírito daquele ser, embora humano como os demais, bastante diferenciado.
Despertado fui, dos meus confusos pensamentos pelo suave e melodioso, embora extremamente forte e significativo, som de um piano, que, de forma magistral, era tocado, inacreditavelmente, por ela, acalentando e enchendo de luz e de alegria, através da magia da música, a alma de todos os presentes.
Foi nesse momento que criei coragem e me aproximei lentamente, tentando não interromper aquele momento surreal que preenchia integralmente de paz, não apenas o meu coração mas, certamente, todos os corações que ali se encontravam.
Emocionado, beijei sua cabeça, tomado por uma emoção diferente de tudo o que havia sentido, além do que aqui já descrevi, surpreendendo-me ao sentir um perfume intenso, forte o suficiente para impregnar todo o ambiente, devido ao seu altíssimo grau de fixação, dificilmente encontrado nos mais nobres extratos.
Ela levantou a cabeça e, olhando fixamente nos meus olhos, com um sorriso iluminado, transbordando paz, alegria e felicidade, perguntou-me, compreendendo que eu havia percebido a grandeza daquele momento, e que nossa sintonia estava na mesma frequência, se eu conseguia sentir a doçura daquele perfume.
Uma única lágrima, como um diamante lapidado, representando não sofrimento, mas sim, alegria e aceitação, escorre de seu rosto, caindo no teclado, coincidentemente sobre a nota sol, o mesmo sol que aquecia e iluminava intensamente a tarde, deixando o céu com uma tonalidade azul celeste, aberto em formato de manto, a espera do seu mais novo habitante.
Ela sequer esperou minha resposta, que, obviamente seria sim, e continuou, dizendo que estava reproduzindo a voz do seu coração, expressando seu mais puro e verdadeiro sentimento, naquele momento, executando, como só ela sabe fazer, as músicas que ele mais gostava e que o perfume que estávamos sentindo e que permanecerá eternamente presente e intenso é, simplesmente o PERFUME DE SAUDADE.